Arquivo pessoal
 Gabriel Fregolente Micossi, de 22 anos, e a mulher Brenda Lopes Castilho, de 20 anos Arquivo pessoal

‘A gente está só no arroz e feijão literalmente, no básico do básico’

Avanço do preço das carnes no açougue, que subiu, em média, mais de 20% nos últimos 12 meses, segundo o IPCA, reflete a disparada na cotação da arroba do boi gordo que bateu neste ano o recorde de R $300 no campo.

Márcia De Chiara e Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 09h00

A queda na renda provocada pela pandemia e a alta dos preços dos alimentos forçaram o brasileiro a fazer uma verdadeira ginástica na hora de ir às compras para conseguir manter as três refeições do dia. Reduzir as quantidades, trocar marcas caras pelas mais baratas e substituir a carne de primeira pela de segunda, pelo ovo e até pelos legumes têm sido as saídas para muitos. 

“Contrafilé faz tempo que a gente não pega, estamos evitando ao máximo por causa desse preço absurdo”, conta o vendedor Gabriel Fregolente Micossi, de 22 anos. Ele trocou esse corte de primeira pelo miolo de acém, que é mais barato ou até mesmo por legumes ou algum congelado mais em conta. 

O avanço do preço das carnes no açougue, que subiu, em média, mais de 20% nos últimos 12 meses, segundo o IPCA, reflete a disparada na cotação da arroba do boi gordo que bateu neste ano o recorde de R $300 no campo.

Juntos há dois anos, Micossi e a mulher, Brenda Lopes Castilho, de 20 anos, manicure, viram a renda encolher 30% com a pandemia. Ao mesmo tempo, essa escalada de preços dos alimentos fez o gasto do casal na despesa de supermercado dar um salto. 

Antes da pandemia, eles desembolsavam cerca de R$ 600 por mês com as compras de alimentos e produtos de higiene e limpeza. Depois, a despesa subiu para R $1.100. E hoje gira em torno de R$ 2.400, mesmo evitando levar para casa itens supérfluos. “A gente está só no arroz e feijão literalmente, no básico do básico”, diz o vendedor.

Christine Aparecida Xavier, de 35 anos, jornalista autônoma, mãe de uma filha de 5 anos e que mora com os pais, adotou a mesma estratégia nesses tempos bicudos. Com a pandemia, ela teve dois contratos de trabalho cancelados , ficou sem renda e teve de recorrer ao auxílio emergencial. Para lidar com esse aperto no orçamento e os aumentos de preços, ela diminuiu a compra de supérfluos. “Assim garanto os itens básicos, essenciais”, conta. 

Até pouco tempo atrás a família comprava três pacotes de arroz de cinco quilos por mês. “Eram R$ 75 no orçamento, ficava muito pesado”, diz. Agora leva para casa dois pacotes e compensa essa redução do cereal comprando um pouco mais de macarrão, que não subiu tanto de preço quanto o arroz.

No caso do leite, consumido apenas pela filha pequena, Christine não diminuiu as quantidades, mas pesquisa preços e leva para casa as marcas mais baratas. Também o óleo de soja, um dos vilões da inflação que quase dobrou de preço nos últimos 12 meses por causa da disparada da soja no mercado internacional, teve o seu consumo reduzido na casa de Christine. Ela explica que passou a usar com mais frequência a fritadeira elétrica comprada há algum tempo pela família. Com isso, resolveu dois problemas de uma só vez: economiza num item caro e mantém a alimentação saudável.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Matérias-primas no atacado têm maior alta em 12 meses desde 1995

Reflexo direto da escalada das cotações das matérias-primas no dia a dia é mais pressão de custos na indústria, que pode resultar em novos reajustes de preços ao consumidor

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 09h00

Puxados pelo mercado internacional, os preços em reais das matérias -primas brutas, que incluem minério de ferro, cobre, soja, bovinos, entre outras importantes commodities, por exemplo, deram um galope em janeiro. Em 12 meses, registraram a maior alta da série iniciada em agosto de 1995. Entre fevereiro de 2020 e o mês passado, a cotação em reais dessas matérias-primas no atacado subiu 71,61%, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), apurados para o cálculo do Índice Geral de Preços -Disponibilidade Interna (IGP-DI). Foi um avanço de mais de dez pontos porcentuais em apenas um mês e uma mudança de tendência. Em dezembro, o ritmo de alta havia perdido força em relação a novembro. 

“Os preços em alta dessas commodities, que são a base de muitas cadeias de produção da economia, sobrecarregam vários segmentos”, alerta o economista André Braz, coordenador do Índice Preços ao Consumidor da FGV. “É um impacto difuso, porque, no caso das commodities metálicas, pega boa parte da cadeia industrial”, concorda o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

O reflexo direto da escalada das cotações das matérias-primas no dia a dia é mais pressão de custos na indústria, que pode resultar em novos reajustes de preços ao consumidor. O leque de produtos cujos preços podem ser afetados pela escalada das matérias-primas é amplo: vai de insumos usados na construção civil, na indústria química até o carro zero.

Mas o estrago mais visível e imediato é na mesa do brasileiro, no tradicional prato feito. Em 12 meses até janeiro, arroz, feijão preto, carne e ovo, por exemplo, subiram 74,14%,54,24%, 22,82% e 10,13%, respectivamente, segundo dados da inflação oficial, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE.

Não é de hoje que a comida tem sido a vilã da inflação. Em 12 meses até janeiro, a alimentação no domicílio acumula alta de quase 20% no IPCA. É um resultado quatro vezes maior do que a inflação geral no mesmo período (4,56%).

No mês passado, os preços do grupo alimentação e bebidas no indicador até desaceleraram em relação a dezembro. Mesmo assim, registraram aumento na casa de 1% em apenas um mês. Também em janeiro os alimentos responderam por quase a totalidade da inflação geral do mês (0,22 pontos de 0,25%). “Acima de 1% em um mês na alimentação, preocupa”, diz Braz.

Na cesta básica da Fundação Procon de São Paulo, os preços de 28 itens que compõem a lista de alimentos também subiram mais de 1% no mês passado. A cesta de comida que custava, em média, R $883,28 em dezembro, atingiu R $893,37 em janeiro e comprometeu mais de 80% da renda das famílias que vivem com um salário mínimo. Para os mais pobres, o gasto com alimentos consome a maior parte da renda e sobra muito pouco para as demais despesas básicas.

Entre os alimentos que mais contribuíram para alta de preços da cesta básica do Procon estão aves e embutidos, como linguiça e presunto, cujos custos estão atrelados à alta dos grãos no mercado internacional. Milho e soja, que ficaram 68,9% e 96,3% mais caros no atacado nos últimos 12 meses, são usados para alimentar os animais.

Diante de tantas pressões, economistas já começam a revisar para cima as projeções de inflação para 2021. No Boletim Focus, do Banco Central, da semana passada o mercado projetava 3,62% para a mediana do IPCA e, nesta semana, subiu para 3,82%. Há um mês a expectativa era de uma alta de 3,50%.

As projeções do mercado estão acima de 3,75%, o centro da meta. “3,75% para mim é piso, a inflação será pressionada não só por alimentos, mas por conta de muitas outras coisas que serão colocadas em dia”, diz Braz. Por enquanto, ele projeta um IPCA em torno de 4% para este ano.

Mais pessimista, o economista Fábio Silveira, sócio da MacroSector espera inflação “desconfortável” de 4,5% para 2021, a mesma marca de 2020. Na sua avaliação, o principal motivo para alta é a pressão do câmbio acumulada ao longo de 2020, de mais de 30%, que impulsionou os custos das empresas na esfera do atacado. “Agora as empresas estão tentando repassar para o varejo, mesmo com a demanda fraca.”

Apesar das perspectivas da fraqueza da atividade no primeiro semestre deste ano, Silveira enxerga condições mínimas para o repasse. Ele aponta a expectativa de um aumento de três milhões no número de trabalhadores ocupados para 2021, que, do ponto de vista macroeconômico, faz alguma diferença. Esses ocupados, mesmo com uma massa de rendimentos menor, terão acesso ao crédito, argumenta. “Essa é a condição básica pra sustentar um pouco mais de demanda e um pouco mais de repasse.”

Vale, da MB Associados, é outro economista que está pessimista com a inflação. “É muito provável que veremos as três grandes cadeias de commodities – agropecuárias, metálicas e petróleo – causarem pressão inflacionária ao longo do ano”, diz. Há algum tempo a consultoria tem a expectativa de que a inflação ao consumidor fique em 3,8% em 2021, mas já considera a possibilidade de aumentar essa projeção. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.