A globalização desconectada

Integração econômica e globalização não são a mesma coisa, mas repousam nos mesmos princípios ricardianos da liberalização comercial – princípios que vêm batendo em ouvidos surdos na arena política

Stephen S. Roach*, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 08h54

Embora em teoria se mostre altiva, na prática a globalização sofre. Essa é a lição do Brexit e da ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos. A globalização também marca o cada vez mais virulento antagonismo anti-China que varre o mundo. Os que rezam no altar do livre-comércio – eu, inclusive – têm de se defrontar com essa gritante desconexão. 

A bem da verdade, não existe uma teoria rigorosa da globalização. O máximo que os economistas conseguem propor é a abordagem de David Ricardo, do século 19: se um país simplesmente produz de acordo com sua vantagem competitiva (em termos de riqueza de recursos e mão de obra qualificada), ele vai ganhar com o comércio além fronteiras. A liberalização do comércio – elixir da globalização – promete beneficiar todos. Essa promessa se concretizaria no longo prazo. No curto prazo, porém, a realidade é invariavelmente muito mais dura. 

O Brexit – saída do Reino Unido da União Europeia – é apenas a última ocorrência nesse sentido. Eleitores do Reino Unido protestaram contra várias das premissas básicas da integração regional: livre movimentação da mão de obra e, em decorrência, liberdade de imigração; regulamentação por autoridades supranacionais de Bruxelas; e união monetária (que tem sérias falhas, como a falta de um mecanismo de transferência fiscal entre Estados-membros). 

Integração econômica e globalização não são a mesma coisa, mas repousam nos mesmos princípios ricardianos da liberalização comercial – princípios que vêm batendo em ouvidos surdos na arena política. 

Nos EUA a subida de Trump e o impulso político ganho pelo senador Bernie Sanders na campanha das primárias refletem muitos dos sentimentos que levaram ao Brexit. Da imigração à liberalização do comércio, as pressões econômicas que caem sobre uma sofrida classe média contradizem as promessas centrais da globalização

Como costuma ser o caso – particularmente num ano de eleição presidencial –, políticos americanos preferem recorrer a acusações quando confrontados com esses temas. Os ataques de Trump à China e ao México e a oposição de Sanders à Parceria Transpacífica – o proposto acordo comercial entre os EUA e 11 países da Bacia do Pacífico – levaram Hillary Clinton, a indicada dos democrata, a adotar atitude semelhante. 

Sem apoio. Em suma, a globalização perdeu seu apoio político – num mundo que tem pouca semelhança com aquele de David Ricardo de dois séculos atrás. Os argumentos de Ricardo, expressos em termos da vantagem competitiva da Inglaterra e Portugal nos setores de tecelagem e vinho, respectivamente, dificilmente seriam vistos como relevantes no mundo hiperconectado e baseado em informações de hoje. O Nobel Paul Samuelson, que abriu caminho na transposição dos fundamentos ricardianos para a economia moderna, chegou a uma conclusão semelhante no fim da vida, quando mostrou como um país copiador de tecnologia e pagador de baixos salários como a China pôde virar do avesso a teoria da vantagem competitiva. 

Não se trata apenas de um problema com uma teoria antiquada. Tendências recentes do comércio global estão emitindo sinais de alerta. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento anual do comércio mundial foi em média de apenas 3% no período 2009-20016 – metade dos 6% de 1980 a 2008. Com o comércio mundial mudando para um desempenho mais baixo, a resistência política à globalização tem e se intensificado. 

Não é a primeira vez, claro, que a globalização se vê em apuros. A Globalização 1.0 – a expansão do comércio global e dos fluxos de capital internacional que ocorreu no fim do século 19 e início do 20 – teve sua derrocada entre a 1ª Guerra e a Grande Depressão. O comércio mundial caiu em torno de 60% de 1929 a 1932, quando as grandes economias se voltaram para dentro e adotaram políticas protecionistas, como o infame Smoot-Hawley Tariff Act de 1930 nos Estados Unidos. 

Mas os riscos podem ser maiores se a globalização mais poderosa de hoje tiver destino semelhante. Em contraste com a Globalização 1.0, confinada a uma troca de bens tangíveis (manufaturados), o alcance da Globalização 2.0 é muito mais amplo, incluindo o comércio envolvendo os chamados intangíveis – antes conhecidos como serviços não negociáveis. 

Comparativamente, os meios da Globalização 2.0 são muito mais sofisticados que aqueles de sua antecessora. A conectividade da Globalização 1.0 era feita por navio, eventualmente por ferrovia e veículos automotores. Hoje, os sistemas de mobilidade são muito mais avançados – ampliados pela internet e seu entrelaçamento com as redes globais de fornecimento. A internet também permitiu a instantânea disseminação pelas fronteiras de serviços baseados em conhecimento, como programação de software, engenharia e design, triagem médica e serviços de advocacia, consultoria e contabilidade. 

Tecnologia. O contraste mais agudo entre as duas ondas de globalização está na velocidade da absorção de tecnologia. Novas informações tecnológicas vêm sendo adotadas numa rapidez inusitada. Levou apenas 5 anos para 50 milhões de lares americanos começarem a navegar na internet, enquanto foram precisos 38 anos para que o mesmo número de pessoas tivesse acesso ao rádio. 

Lamentavelmente, os economistas falharam em detectar os problemas inerentes à globalização. Ao se aterem a uma teoria antiquada, eles quase ignoraram o aqui e agora de um crescente retrocesso trabalhista.

Infelizmente, programas de proteção para trabalhadores desempregados ou pressionados pelo comércio são tão obsoletos quanto as teorias de vantagem competitiva. São necessárias políticas mais modernas para responder às fortes pressões que hoje atingem uma faixa muito mais ampla de trabalhadores. A hipervelocidade da Globalização 2.0 sugere assistência mais ampla para reciclagem de trabalhadores, colocação, recolocação, seguro salarial para trabalhadores idosos e mais tempo de salário-desemprego.

Como a história adverte, a alternativa – seja o Brexit ou o isolacionismo dos EUA – é um acidente pronto para acontecer. Cabe àqueles que defendem o livre-comércio e a globalização buscar soluções concretas para os problemas reais que hoje afligem tantos trabalhadores. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

*PROFESSOR EM YALE

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