Nelson Atoine
Nelson Atoine
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A globalização e o vírus sem fronteiras

A economia pede fluxo de recursos e coordenação de políticas globais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 19h00

A globalização vai encolher? As notícias recorrentes que dão conta sobre esse encolhimento são comemoradas agora por qualquer agrupamento de xenófobos. Mas será essa a tendência? Ou não acontecerá o contrário? A pandemia afundará ou aprofundará a globalização?

O vírus desconhece fronteiras, chega por terra, mar e ar. E se instala. O único continente definitivamente livre do flagelo é a Antártida.

Quarentena e isolamento, fechamento de fronteiras, cancelamento de voos, das excursões por navios de cruzeiro, das viagens de trem e de ônibus... Tudo isso e tanta coisa mais parecem avisar que a melhor resposta a esse vírus global é transformar cada pessoa num ermitão. Para completar a paisagem desolada, por toda a parte o comércio, os bares, os restaurantes, os hotéis e as praças de esportes cerram suas portas. O resultado é o colapso dos transportes e do comércio internacional, duas marcas indeléveis da globalização. O Tratado de Schengen, entre 26 países da Europa, que garante a livre circulação das pessoas, enfartou subitamente, sem prazo para recuperação.

Ou seja, as primeiras respostas à ação de um vírus globalmente devastador foi drástico recuo da globalização. O que, afinal, isso diz sobre o futuro do processo de integração?

Nesta quinta-feira, os dirigentes do G-20, grupo das 20 principais potências econômicas e políticas do mundo, do qual o Brasil faz parte, realizaram um encontro virtual, sob a presidência da Arábia Saudita, e deram uma primeira resposta global coordenada, destinada a combater esse agente que destrói a interconectividade das nações.

Antes disso, os grandes bancos centrais e boa parte dos chefes de governo já haviam tomado providências conjuntas para enfrentar a hora ruim. No documento do G-20 ficou dito que governos e bancos centrais vêm despejando nada menos que US$ 5 trilhões para combater a pandemia. O simples acordo bipartidário nos Estados Unidos que decidiu distribuir US$ 2 trilhões para socorrer cidadãos e empresas atingidas pela pandemia dissipou a maior parte do pânico que havia derrubado os mercados. Os mercados respiram..

E agora até mesmo dirigentes dos Estados Unidos, antes empenhados em travar uma guerra comercial feroz com a China, comemoram as primeiras indicações que apontam para a normalização das atividades produtivas e comerciais por lá, onde a doença começou.

Nenhuma resposta conjunta seria possível, mesmo fora do âmbito do G-20, se a extensa rede de comunicações e de internet não houvesse possibilitado a circulação de informações garantiram ampla divulgação sobre a natureza e o comportamento do vírus, a identificação dos grupos expostos aos maiores riscos, a troca de conhecimentos científicos, os procedimentos adotados e as melhores estratégias de combate.

Quando vier a recuperação da saúde das pessoas e da economia, ainda haverá quem trate de trancar tudo, de reforçar muros e fronteiras e de pregar o isolamento, como já se via ao redor do mundo. Mas será impossível bloquear as viagens, o comércio, a interconexão de cadeias produtivas e o intercâmbio tecnológico. A economia pede não só fluxo de recursos. Pede, também, coordenação de políticas globais.

CONFIRA

» Preços do petróleo despencam 

O gráfico mostra o comportamento dos preços no mercado futuro da principal referência do petróleo brasileiro, o Brent. Os números são impressionantes. Apenas em março, caíram 46,6%. No acumulado do ano, até esta quinta-feira, o tombo foi de 59,4%. A principal mortandade a partir desse desabamento de preços deverá acontecer no segmento de óleo de xisto dos Estados Unidos, que opera a custos superiores aos preços vigentes. O governo Trump deverá socorrê-lo, mas sabe-se lá até que ponto.

Receba no seu email as principais notícias do dia sobre o coronavírus.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.