A grande decepção

Novas tecnologias renderam manchetes ótimas, mas resultados econômicos modestos

Paul Krugman, The New York Times

25 Maio 2015 | 17h39

Lembram-se do romance de Douglas Adams, Guia do Mochileiro das Galáxias, publicado em 1979? O livro começa com uma piada tecnológica, fazendo pouco da Terra por tratar-se de um planeta cujas formas de vida "são tão incrivelmente primitivas que ainda consideram relógios digitais uma ideia inteligente". Mas isso foi há bastante tempo, nos estágios iniciais da revolução da tecnologia da informação.

Desde então, avançamos para coisas muito mais significativas, ao ponto de a grande ideia tecnológica de 2015 ser, até o momento, um relógio digital. Mas, dessa vez, os modelos nos avisam para levantar se estivermos sentados há muito tempo!

Ok, também estou fazendo piadas tecnológicas. Mas há aqui uma questão real. Todos sabemos que vivemos numa época de mudança tecnológica incrivelmente rápida, que está alterando tudo ao nosso redor. Mas e se tudo aquilo que todos sabem estiver errado? Não estou falando como uma voz solitária e contrária à corrente. Ao analisar os números da renda e da produtividade, um número cada vez maior de economistas está se perguntando se a revolução tecnológica teve sua importância grosseiramente exagerada - e alguns tecnólogos parecem partilhar dessa preocupação.

Já vimos isso antes. O Guia do Mochileiro foi publicado durante a era do "paradoxo da produtividade", um período de duas décadas durante as quais a tecnologia parecia avançar rapidamente - computação pessoal, celulares, redes locais e os primeiros estágios da internet - mas o crescimento econômico foi lento e a renda permaneceu estagnada. Muitas hipóteses foram apresentadas para explicar esse paradoxo, e a mais popular dizia que inventar uma tecnologia e aprender a usá-la não são de fato a mesma coisa. 

Se dermos mais tempo aos computadores, eles vão cumprir o prometido (bens e serviços), disseram os historiadores da economia.

Esse otimismo pareceu justificado quando o crescimento da produtividade finalmente decolou perto de 1995. O progresso voltou - e também a prosperidade dos Estados Unidos, que pareciam estar na vanguarda da revolução.

Mas algo engraçado ocorreu no caminho rumo à revolução tecnológica. Não obtivemos um retorno sustentado ao rápido progresso econômico. Em vez disso, o que vimos foi uma espécie de  estirão único, que perdeu força há cerca de dez anos. Desde então, temos vivido numa era de iPhones, iPads e iSeiláoquês, mas, mesmo ajustando para os efeitos da crise financeira, o crescimento e as tendências na renda voltaram ao ritmo lento que caracterizou os anos 1970 e 1980.

Em outras palavras, a essa altura, toda a era digital, que engloba mais de quatro décadas, está parecendo um fracasso. Novas tecnologias renderam manchetes ótimas, mas resultados econômicos modestos. Por quê?

Uma possibilidade é que os números não estejam retratando a realidade, principalmente os benefícios dos novos produtos e serviços. Desfruto bastante a tecnologia que me permite assistir via streaming a apresentações de meus músicos favoritos, mas isso não é calculado no PIB. Ainda assim, a nova tecnologia deve atender aos empreendimentos e também aos consumidores, e deveria incrementar a produção de bens tradicionais e novos. O grande ganho de produtividade do período de 1995 a 2005 decorreu principalmente de coisas como o controle de inventário, e foi observado principalmente em setores não-tecnológicos como o varejo, mas também nas próprias indústrias de alta tecnologia. Nada disso está ocorrendo agora.

Outra possibilidade é que as novas tecnologias sejam mais divertidas do que fundamentais. Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal, comentou certa vez que desejávamos carros voadores e em vez disso o que conseguimos foram 140 caracteres. E ele não está sozinho ao indicar que a tecnologia da informação e anima os adeptos do Twitter pode não ser importante para a economia como um todo.

O que eu acho que há de errado com a tecnologia? A resposta é que não sei - mas ninguém sabe. Talvez meus amigos do Google tenham razão, e a grande disponibilidade de dados em massa do Big Data logo vai transformar tudo. Talvez as impressoras 3D sejam a revolução da informação projetada no mundo material. Ou talvez estejamos nos encaminhando para outra grande decepção.

Mas não tenho dúvida quanto a uma coisa: precisamos diminuir a empolgação.

Sabem, escrever e falar o tempo todo a respeito do quanto a tecnologia muda tudo pode parecer algo inofensivo, mas, na prática, isso funciona como uma distração das questões mais mundanas - e uma desculpa para lidar mal com essas questões. Se voltarmos aos anos 1930, veremos muitas pessoas influentes dizendo o mesmo que as pessoas desse tipo dizem hoje em dia: não se trata de um problema do ciclo de negócios, e menos ainda de debates a respeito da política macroeconômica; trata-se de mudanças tecnológicas radicais e uma força de trabalho que carece das habilidades para lidar com a nova era.

E então, graças à 2 Guerra Mundial, finalmente obtivemos o surto ascendente na demanda do qual necessitávamos, e todos aqueles ditos trabalhadores sem qualificação - além da clássica Rosie Rebitadeira - se revelaram bastante úteis na economia moderna, depois de receberem uma chance.

Mas claro, lá vou eu, evocando a história. Como é possível que eu não entenda que tudo é diferente hoje? Bem, entendo por que as pessoas gostam de dizer isso. Mas não significa que seja verdade. Tradução de Augusto Calil.

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