A grande ilusão grega

A Grécia não deveria ter sido autorizada a aderir ao euro por ter forjado suas contas. E o novo pacote de ajuda pode ser dinheiro jogado fora

Roger Cohen, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2011 | 00h00

Durante muito tempo, a Grécia teve um domínio emocional sobre a Europa. Toda a história de berço da civilização ocidental tornou o país indulgente, complacente. A União Europeia não estava pronta para seguir em pé de igualdade com o berço da democracia.

A glória passada é uma coisa maravilhosa - e um péssimo guia para a política presente. Isso é verdade tanto na Terra Santa, como no Kosovo e também em Atenas. A Grécia não deveria ter sido autorizada a aderir ao euro.

Ela não conseguiu entrar para a Zona do Euro em 1999 por não ter atendido aos critérios fiscais. Quando cumpriu as regras, em 2001, os dados orçamentários foram forjados.

Mas a corajosa união monetária da Europa necessitava de um imprimatur ateniense para ser plenamente europeia. Assim, todo o mundo fez que não viu.

Na verdade, a história recente tem sido um guia muito melhor. A Grécia teve um século passado medonho, que começou com as guerras de 1912-1913 que arrancaram o norte da Grécia do domínio otomano.

Depois, a troca em massa da população ou a "limpeza étnica", negociada em Lausanne em 1923, quando 400 mil muçulmanos foram forçados a se transferir da Grécia para a Turquia e ao menos 1,2 milhão de cristãos ortodoxos gregos saíram da Turquia com destino à Grécia.

Essa convulsão foi seguida pela ditadura, nos anos 30, do general Metaxas; a brutal ocupação alemã de 1941 a 1944; e a guerra civil devastadora no fim da década de 40, cujo legado foi uma disputa ideológica visceral entre esquerda e direita que persiste até hoje.

A ditadura militar de direita de 1967-1974, que encurralou e exilou muita gente de esquerda, avivou as brasas da guerra civil. O conflito que perdura até hoje com a Turquia sobre a questão do Chipre, envolvendo suas próprias "trocas de população" , assegura que a lembrança de 1923 não desapareça inteiramente.

Assim, esqueça Sócrates. Leia o excelente livro de Bruce Clark, "Twice a Stranger" (em tradução literal, algo como "Duas vezes uma estranha"), sobre as consequências dessa troca de população acordada em Lausanne e a psique da Grécia moderna.

Clark escreve sobre a Grécia como uma sociedade "onde os laços de sangue são muito mais importantes do que a lealdade ao Estado ou aos sócios numa empresa". Não é um estado mental propício para pagar impostos, para um esforço coletivo ou finanças públicas equilibradas.

Não é uma regra, mas não ajuda. Não surpreende o fato de a Grécia ter aderido ao euro como um recurso para viver no mundo da fantasia - acabar com uma dívida equivalente a 150% do Produto Interno Bruto (PIB) e cada vez maior.

Sim, a adesão à União Europeia forneceu algum bálsamo para as feridas gregas. Este é o grande mérito da UE: ela elimina a toxicidade da história. Mas a Grécia permanece uma nação que desconfia dos estrangeiros - quando você foi dominado pelos Otomanos não quer ser comandado por bancos centrais - e um lugar onde as estruturas do Estado inspiram pouca lealdade.

Não é um bom augúrio. Sugere que o último pacote de socorro, após os US$ 158 bilhões no ano passado, pode ser um dinheiro emprestado jogado fora.

Jamais vi a Europa numa situação tão terrível. A Grécia está repleta de indignados, que rejeitam os drásticos cortes e vendas de indústrias estatais, necessários porque não há mais a dracma para desvalorizar de modo a recuperar a competitividade.

Como os manifestantes na Espanha, os gregos percebem que os pobres e os desempregados é que estão pagando pelos erros dos políticos, as sonegações dos ricos e todo um sistema globalizado que recompensa os iniciados em tecnologia e pune os esquecidos.

Sua cólera é compreensível.

Sob muitos aspectos, a crise do euro, a crise europeia, é um símbolo vivo do nosso tempo. Uma ordem sem fronteiras concebida por tecnocratas, sustentada durante um inebriante período por taxas de juros baixas, apreciada pelas classes endinheiradas que ganharam ainda mais, enfrenta agora a revolta popular, combinada com a pressão implacável das suas contradições.

Greves e protestos violentos são a medida de uma Europa que hoje deixa muitos cidadãos indiferentes às grandes realizações da integração europeia. As fronteiras abertas começam a se fechar novamente. A Turquia está dando as costas para a União Europeia.

A Alemanha abandonou seu idealismo europeu pós-guerra. Os Estados Unidos censuram a Europa por sua irresponsabilidade militar. Muitos gregos e espanhóis acreditam que a Europa não é nada mais do que uma grande fraude.

A conclusão é esta: uma união monetária entre economias radicalmente divergentes sem o suporte da união política ou fiscal não tem nenhum precedente histórico convincente. Durante um período, o boom do dinheiro fácil permitiu que todos negligenciassem o fato de que economias periféricas como as da Grécia e a de Portugal não estavam ganhando competitividade ou "convergindo", mas acumulando déficits e dívidas insustentáveis. Agora a dura realidade está clara.

Diante da explosiva situação política, a exasperação germânica e os limites do que a população grega vai aceitar, acho que o melhor resultado que se pode imaginar com o tempo será provavelmente um calote grego mais ordenado, e não um calote que provoque muita perturbação.

Simplesmente não há muita disposição para se adotar as medidas fundamentais - como aprovar a emissão de "E-Bonds" subscritos por todos os contribuintes da Zona do Euro ou a criação de um ministério das finanças da União Europeia - que convenceria os mercados de que a zona em que circula a moeda está mesmo pronta para assumir a lógica da união monetária. Como resultado, as tendências já evidentes - fora da convergência - continuarão prevalecendo.

A Grécia não estava pronta para o euro. Seu passado clássico foi menos relevante do que seu passado recente. Uma mentira é como uma bola de neve. Quanto mais rola na neve, maior fica. Nenhuma operação de socorro pode ocultar isso. /

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.