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A Grande Muralha da China

Onda de ataques na internet dá sinais de tentativas de bloquear sites estrangeiros

O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2015 | 02h04

Em 26 de março, o site americano GitHub, dedicado a programadores de software, começou a ser vítima do maior ataque de negação de serviço de sua história. A ferramenta e a aparente motivação da investida não merecem menos destaque: o Great Firewall, infraestrutura que o governo chinês usa para filtrar o tráfego de internet que chega ao país, foi utilizado. O objetivo, parece, era convencer o GitHub a excluir de suas páginas alguns conteúdos que as autoridades chinesas desaprovam, incluindo a edição do New York Times em chinês. É provável que a identidade dos autores do ataque jamais seja descoberta, mas o fato é que o conflito online com a China sofreu uma escalada.

Como sugere o apelido, o Great Firewall (referência simultânea à Grande Muralha da China e ao dispositivo de segurança usado em redes de computadores) é uma muralha defensiva, destinada a bloquear conteúdos estrangeiros que o governo chinês considera impróprios. Fora da China, até agora os usuários da internet haviam sido pouco afetados. A coisa mudou de figura em 17 de março, afirmam analistas de segurança, quando hackers não identificados começaram a usar o firewall chinês para desviar o tráfego de usuários que tentavam acessar os sites criados pelo Greatfire.org, um grupo ativista que oferece aos chineses acesso a conteúdos bloqueados pelo governo do país (incluindo a edição do New York Times em chinês). O ataque lançado contra o GitHub obedeceu o mesmo padrão. Em ambos os casos, tráfego vindo do exterior, com destino ao Baidu, maior mecanismo de buscas da China, foi interceptado e direcionado para os sites americanos. (Os responsáveis pelo Baidu informam que não tiveram participação nos ataques e que estão "determinados" a impedir que eles se repitam.)

O objetivo imediato desse tipo de ação é derrubar o site atacado, impedindo os usuários chineses de acessar cópias de sites bloqueados (pelo menos até que outras cópias sejam feitas). No longo prazo, o motivo pode ser demover as empresas de internet estrangeiras de hospedar esses "espelhos". O serviço de nuvem da Amazon, por exemplo, hospeda sites do Greatfire.org que foram atacados. Em 27 de março, os administradores do GitHub disseram acreditar que a intenção era "convencê-los a remover uma categoria específica de conteúdo".

Independentemente de quem sejam os autores dos ataques, o fato é que eles fazem parte de uma ofensiva mais ampla da China contra a ordem online existente. Desde os anos 90, quando o país estabeleceu sua primeira conexão com a internet, as autoridades chinesas se preocupam com duas coisas: a influência que os Estados Unidos exercem sobre a rede e a dificuldade em controlar o conteúdo online a que seus cidadãos têm acesso. Os sites estrangeiros começaram a ser filtrados de forma sistemática em 1996. Então os programadores chineses desenvolveram o Great Firewall, cujo alcance e raio de ação vem sendo progressivamente expandido. Faz anos que a ferramenta bloqueia o acesso a Facebook, Twitter e YouTube, assim como aos sites de algumas empresas de comunicação estrangeiras, em especial aquelas que andaram investigando o patrimônio financeiro das famílias de lideranças políticas chinesas. Depois que Xi Jinping se tornou secretário-geral do Partido Comunista, no fim de 2012, a censura online - assim como o esforço para silenciar vozes dissonantes no mundo real - tornou-se ainda mais pronunciada.

Este ano, foram ampliadas as tentativas de eliminar o uso das redes privadas virtuais (VPNs, na sigla em inglês), que podem ser empregadas para contornar firewalls. O governo chinês também vem adotando posição mais firme em relação ao que considera ser a soberania online do país, exigindo que ela seja respeitada pelas outras nações. O estabelecimento, por sites estrangeiros, de rotas alternativas que permitam o acesso a conteúdos bloqueados pode ser entendido como algo que fere essa soberania online. Em janeiro, a Administração do Ciberespaço da China (CAC, na sigla em inglês), declarou que o Greatfire.org é mantido por forças estrangeiras anti-chinesas. (O site não revela quem são, nem onde se encontram seus fundadores.)

Em 31 de março, o Greatfire.org responsabilizou a CAC pelos últimos ataques, sustentando ser impossível que o Great Firewall tenha sido utilizado sem aprovação da agência ou do ministro Lu Wei, a que a CAC está subordinada. Mas isso é algo difícil de provar. Segundo Nathan Freitas, do Berkman Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard, a ação não deixou rastros que comprovem o envolvimento do governo chinês - mas as autoridades do país deveriam esclarecer como uma infraestrutura de internet tão crítica pôde ser "comprometida por criminosos". The Economist tentou ouvir a CAC, enviando perguntas pelo meio de comunicação favorito da agência, o fax, mas não obteve resposta.

©2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM

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