Thanassis Stavrakis/AP
Thanassis Stavrakis/AP

A Grécia além do precipício

Já faz algum tempo que se tornou óbvio que a criação do euro foi um erro terrível. A Europa nunca teve as pré-condições para uma moeda única bem sucedida - acima de tudo, o tipo de união bancária e fiscal que garante, por exemplo, a proteção automática de Washington aos idosos, seus planos de saúde e depósitos bancários quando uma bolha imobiliária estoura na Flórida.

Paul Krugman, The New York Times

29 de junho de 2015 | 10h47

Mas abandonar uma união monetária é uma decisão muito mais difícil e assustadora do que jamais fazer parte dela desde o início e, até o momento, mesmo as economias mais problemáticas do continente se afastaram repetidamente da beira do precipício. De novo e de novo, os governos se submeteram às exigências de rigorosa austeridade por parte dos credores, enquanto o Banco Central Europeu conseguiu conter o pânico no mercado.

Mas a situação na Grécia chegou agora ao que parece ser um ponto sem volta. Os bancos estão temporariamente fechados e o governo impôs controles de capitais - limites para a transferência de dinheiro para fora do país. Parece bastante provável que o governo logo será obrigado a pagar pensões e salários em cupons, criando na prática uma moeda paralela. E, na semana que vem, o país vai realizar um referendo para decidir se aceita ou não as exigências da "troika"  - as instituições que representam os interesses dos credores - por austeridade ainda maior.

A Grécia deve optar pelo "não", e o governo grego precisa estar preparado para deixar o euro, se necessário. Para compreender por que digo isso, é preciso ter em mente que a maior parte - não tudo, mas a maior parte - das histórias que ouvimos a respeito da gastança e irresponsabilidade dos dos gregos é falso. Sim, o governo da Grécia gastava mais do que arrecadava no final da década de 2000. Mas, desde então, os gastos foram cortados repetidas vezes, e os impostos aumentaram. O funcionalismo público teve queda de 25%, e as pensões (que eram de fato generosas demais) receberam pesados cortes. Se somarmos todas as medidas de austeridade, o resultado teria sido mais que suficiente para eliminar o déficit original e gerar um excedente considerável.

Por que isso não ocorreu? Porque a economia grega entrou em colapso, principalmente como resultado dessas medidas de austeridade, derrubando consigo a arrecadação.

E esse colapso, por sua vez, teve muito a ver com o euro, que aprisionou a Grécia numa camisa de força econômica. Os casos bem-sucedidos de austeridade, quando os países conseguem controlar os déficits sem provocar uma depressão, costumam envolver grandes desvalorizações da moeda que tornam suas exportações mais competitivas. Foi o que ocorreu, por exemplo, no Canadá dos anos 90, e em boa medida foi o que ocorreu recentemente na Islândia. Mas, sem moeda própria, a Grécia não tinha essa opção.

Estou defendendo a saída da Grécia do euro? Não necessariamente. O problema dessa alternativa sempre foi o risco de caos financeiro, de um sistema bancário perturbado por saques desesperados e empresas afetadas tanto por problemas bancários quanto pela incerteza jurídica em relação às dívidas. É por isso que sucessivos governos gregos aceitaram as demandas por austeridade, e esse é o motivo de até o Syriza, coalizão de esquerda atualmente no governo, estava disposto a aceitar a austeridade que já fora imposta.

Tudo que eles pediram foi, na verdade, uma pausa nas exigências por austeridade ainda maior. Mas a troika não quis saber. É fácil se perder nos detalhes, mas o ponto essencial no momento é que a Grécia recebeu uma oferta do tipo pegar-ou-largar que, na prática, é idêntica às políticas dos cinco anos mais recentes.

É uma oferta que o primeiro ministro grego Alexis Tsipras não pode aceitar (acredita-se que a intenção era mesmo essa), pois isso destruiria sua razão política de ser. Assim, o objetivo deve ser tirá-lo do poder, o que deve provavelmente ocorrer se os eleitores gregos temerem confrontos adicionais com a troika a ponto de votarem "sim" na semana que vem.

Mas eles não deveriam fazê-lo, por três motivos. Primeiro, sabemos agora que apostar numa austeridade cada vez mais rigorosa é um beco sem saída: passados cinco anos, a situação na Grécia só piorou. Segundo, boa parte (talvez a maior parte) do temido caos que decorreria da saída da Grécia do euro já ocorreu. Com os bancos fechados e a imposição de controles de capitais, não há muito mais estrago a ser feito.

Por fim, aceitar o ultimato da troika representaria o abandono definitivo de qualquer pretensão à independência grega. Não devemos dar ouvidos às narrativas segundo as quais os funcionários da troika são apenas tecnocratas explicando aos gregos ignorantes o que precisa ser feito. Esses supostos tecnocratas vivem na verdade num mundo de fantasia, e desconsideraram tudo que sabemos a respeito de macroeconomia, errando a cada decisão tomada. Não é uma questão de análise, e sim de poder - o poder dos credores de tirarem da tomada os aparelhos que mantêm viva a economia grega, que perdura enquanto uma saída do euro for tratada como impensável.

Assim, é hora de acabar com isso e pensar no impensável. Caso contrário, a Grécia enfrentará uma austeridade sem fim, e uma depressão sem sombra de fim. (Tradução de Augusto Calil)

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