A Grécia, o euro e nós

A naturalidade com que vários analistas têm examinado as possibilidades de fim do euro como moeda supranacional contrasta com a atribulada história que precedeu a sua criação. No momento da entrada em circulação da moeda unificada, recebi, junto com o primeiro troco e a bisnaga da manhã, uma longa explicação de uma atendente de padaria numa pequena cidade dos Alpes franceses. Falou-me do significado, para as famílias europeias, como a dela, que perderam tantas vidas em guerras, do sonho de ver uma Europa forte e unida. Enquanto eu, economista cético, especulava se o seu entusiasmo aguentaria uma recessão forte em que ela visse os empregos franceses serem tomados por vizinhos dispostos a aceitar salários menores, minha interlocutora discorria sobre o valor simbólico da moeda única. Desde então, passei a achar natural que a unificação monetária da Europa fosse vista como um experimento que ultrapassa as fronteiras da viabilidade econômica.

DIONISIO DIAS CARNEIRO, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

A atual crise grega mostra a precariedade dos arranjos econômicos, diante da capacidade de que os líderes políticos dispõem quando, para tomar ou manter o poder, decidem usar o gasto público para capturar eleitores. Não hesitam em abusar do imaginário da população, desenhando com uma retórica falsa os contornos de um futuro melhor. Na Grécia, os socialistas de Papandreou ignoraram as restrições econômicas intertemporais, valendo-se do sonho da unidade europeia. Reafirmaram o discurso das promessas impossíveis, mesmo depois de soarem todos os sinais de alarme. Hoje, a população nas ruas incendeia bancos, recusa-se a abandonar os símbolos e cobra do governo as promessas, que requerem independência para gastar.

Os eventos das últimas semanas mostram que o futuro do euro não depende apenas dos políticos que abusaram dos benefícios da moeda única. Depende de um acordo entre os contribuintes alemães e os beneficiários dos programas gregos. Diante das dificuldades para intermediar esse acordo, políticos tentam obter a solução via desmoralização do Banco Central Europeu (BCE), em plena crise de confiança.

Uma combinação de moratória ordenada da Grécia com ação coordenadora do FMI para um esforço fiscal conjunto (com ou sem a criação de um fundo europeu), aliada a uma reforma sobre sanções e deveres para os países-membros e um aumento do poder do BCE sobre o sistema bancário dos diferentes países, pode evitar a saída de algum país do sistema. Uma eventual saída é vista por alguns, indevidamente, como o fim da moeda europeia.

Para o Brasil, o esforço de sobrevivência do euro contém lições importantes. A primeira e mais óbvia é que a estabilização e o equilíbrio macroeconômico não são independentes da disciplina fiscal. Outra lição é que nem a responsabilidade fiscal nem a inflação baixa são conquistas garantidas, exceto quando os eleitores estão mobilizados para as causas da instabilidade, como estão os alemães, e não para os benefícios da mesma, como gregos e brasileiros. Em comum com os gregos temos políticos em disputa por votos, que brigam pela paternidade dos benefícios sem custos.

Outra lição é que precisamos lidar com uma nova realidade de enfraquecimento político dos bancos centrais, e isso é indesejável para um país com a tolerância inflacionária do Brasil. Nos EUA, a proposta de uma auditoria para as decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) representa uma mudança radical no papel do Fed. Na eurozona, o anúncio da compra de títulos pelo BCE sem requisitos de avaliação de risco, um dia após a declaração do presidente Jean-Claude Trichet, que reafirmou sua "feroz" independência, foi a solução para impedir outra crise de liquidez interbancária (ver entrevista no Estadão de domingo).

No Brasil, o candidato do PSDB declara-se contra a independência do Banco Central (BC) e a candidata do PT mostra que não sabe o que é restrição fiscal. Para ambos algo a pensar: quem leva a sério a responsabilidade fiscal não precisa tirar a independência do BC. Quem não leva não merece mandar no BC.

ECONOMISTA, É DIRETOR DA GALANTO CONSULTORIA E DO IEPE/CDG

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