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A herança de Temer

Novo governo mantém bom crédito de confiança, mas hora da cobrança está chegando

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2016 | 05h00

Começa hoje o período que deve encerrar a interinidade de Michel Temer na Presidência da República. Serão no mínimo seis dias de sessões no Senado, nas quais o País assistirá a um compacto dos episódios de uma série que se arrasta desde 2015, chegou a bater recordes de audiência, mas já dá sinais de exaustão. A pergunta é uma só: terminada essa temporada, o que virá depois?

Quem se acostumou com os lances rumorosos da Lava Jato e seus desdobramentos pode até imaginar que o dia seguinte do provável afastamento definitivo de Dilma Rousseff trará uma reviravolta no enredo. Engano total. Tudo indica que a nova temporada, com Temer confirmado no poder, será muito parecida com a da interinidade, que deve terminar agora. Saem alguns personagens, entram outros, mas não há mudanças bruscas de rumo à vista. Pelo menos na área econômica, onde o cenário combina recessão brava, quadro fiscal deteriorado e muitas expectativas depositadas na nova administração.

No caso da recessão, as perspectivas são de alguma melhora, mas nada de sensacional. A fraquíssima base de comparação é que acabará “inflando” os números do ano que vem. Com uma queda estimada pelo mercado em 3,2%, neste ano, o PIB pode crescer mais de 1,0%, em 2017 – o governo já fala em 1,6%. É o efeito do tal fundo do poço, que muitos analistas já estão reconhecendo nos indicadores da atividade econômica. Para a população em geral, a sensação de alívio ainda deve demorar. Até porque o desemprego continua castigando vários setores – são hoje 11,5 milhões de desempregados no País – e ainda mostra fôlego para se expandir. A avaliação é que as empresas adiaram ao máximo as dispensas, na transição Dilma-Temer, para evitar o custo de readmissão, caso houvesse uma reação forte da atividade econômica. E tratam agora de fazer seus “ajustes”.

Em relação à área fiscal, a herança de Temer é bem mais pesada. Nesse período de interinidade, a equipe de Henrique Meirelles ocupou-se de escancarar a desorganização das contas públicas e os riscos de agravamento da situação, até de um colapso, caso nada de “radical” seja feito.

E parte das bases políticas de Temer resiste a encampar as medidas recomendadas pela área econômica para reverter essa trajetória. Vai daí que, mesmo colocando no papel metas fiscais mais “factíveis” – déficits de R$ 170 bilhões neste ano e R$ 139 bilhões no ano que vem –, o governo está ameaçado de não cumpri-las. A batalha em torno dos reajustes salariais dos servidores públicos é uma das inúmeras que estão por aí, comprometendo esses objetivos.

Por último, há a questão das expectativas. A julgar pelos indicadores disponíveis, o governo Temer mantém um crédito de confiança com vários setores. O Índice de Confiança do Consumidor medido pela FGV, por exemplo, atingiu em agosto o maior nível desde janeiro de 2015. Mas espera-se que, esgotado o argumento do “só depois do impeachment”, esse crédito comece a ser cobrado.

Quem aposta num ajuste fiscal veloz e profundo, certamente vai se decepcionar. O Congresso com que Temer terá de negociar não mudou – não era “interino”. Ou seja, continuará dando passagem a lobbies de várias origens. E dentro da própria casa, já há ministros que administram 2016/2017 esticando o olho para 2018.

Além disso, cresce a polêmica sobre a conveniência de estender os cortes aos gastos sociais. Quem conta com uma retomada consistente do crescimento a curto prazo também ficará frustrado. Não há mais espaço fiscal para incentivos ao consumo e o investimento produtivo continua arredio. Os investimentos vindos de fora têm sido suficientes para financiar o rombo das contas externas, mas não para comprovar a volta do interesse dos grandes grupos internacionais pelo Brasil.

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