A herança de Temer

Eleitorado não vê avanços na economia. E complica candidaturas governistas

Cida Damasco, Impresso

30 Abril 2018 | 05h00

Mais um lance no game eleitoral de 2018, cuja mudança de fases ocorre num ritmo frenético: Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles podem compor uma chapa única, com Temer desistindo de vez de tentar a reeleição. Nessa nova/velha parceria, o MDB entraria com mais palanques e horário de TV ampliado, mas o PSDB teria de defender a herança de Temer. Uma troca que, à primeira vista, faz todo sentido.

Deixando de lado as questões políticas e policiais que cercam os dois partidos e seu impacto na campanha, as condições negociadas para essa união podem trazer um peso adicional para a candidatura de Alckmin. Simplesmente porque o público, no caso o eleitorado, até agora não reconhece como favorável o legado de Temer. Até mesmo na economia, onde a melhora em relação ao governo anterior é clara.

A avaliação da maioria dos analistas é que a economia andou para frente, nos tempos de Temer. A longa e profunda recessão acabou, a inflação está no chão, o juro básico desabou, os investidores financeiros ainda olham para o Brasil com bons olhos, apesar dos reparos das agências de risco e do tumulto político – o risco País, que reflete essa boa “imagem” da economia do Brasil nos mercados internacionais, está à metade do nível atingido no impeachment de Dilma Rousseff. Porém, segundo as pesquisas mais recentes, a avaliação da opinião pública é oposta. Por que acontece esse descolamento? Haveria uma espécie de “ingratidão” da população?

Ironias à parte, claro que o povo tem lá suas razões. Antes de qualquer coisa, retomada da atividade econômica é sinônimo, para gente comum, de recuperação de empregos. E empregos com carteira assinada, aqueles que dão segurança para o trabalhador, que o estimulam a assumir compromissos, facilitam a obtenção de crédito e assim por diante. Exatamente o que continua em falta na praça. Os dados do IBGE mostram que o desemprego aumentou novamente – de 11,8% para 13,1%, entre o último trimestre de 2017 e o primeiro de 2018, o que corresponde a um contingente de 13,7 milhões de pessoas sem trabalho. Mais ainda: o número de trabalhadores com carteira assinada, de 32,9 milhões, é o menor desde o início de série histórica, iniciada em 2012.

É fato que, no novo mundo do trabalho, o espaço reservado ao emprego com carteira assinada é cada vez mais apertado. Mas o que temos, no momento, são menos jovens empreendedores tentando ensaiar a criação de uma startup, símbolo desses tempos, e mais trabalhadores até com alguma qualificação correndo atrás do velho e bom “bico” para sobreviver.

A queda dos juros também é vista com grande ceticismo. Os juros do dia a dia, aqueles cobrados para quem contrata financiamento na compra de algum bem ou recorre a empréstimos para cobrir alguma necessidade, continuam elevados, embora tenham caído na rabeira da Selic, a taxa básica. Segundo o Banco Central, a taxa média de juros em março era de 26,2% ao ano, praticamente quatro vezes a Selic de 6,5%. Lá na ponta das linhas de crédito, as taxas do rotativo do cartão superavam os 330% ao ano, 156 pontos abaixo das registradas um ano antes, mas ainda muito longe de níveis considerados aceitáveis.

O caso da inflação é ainda mais emblemático desse “descolamento”. Se há uma área onde houve resultados, essa é sem dúvida a da inflação. O risco de um salto para a casa dos dois dígitos cedeu lugar a uma preocupação com uma queda excessiva das taxas, abaixo do piso das metas oficiais. As projeções para o ano são alguma coisa próxima a 4%. E ainda que o dólar avance, a atividade econômica morna não autoriza, pelo menos por enquanto, a expectativa de um repasse automático para os preços. Mesmo assim, as pesquisas detectam reprovação à atuação de Temer no combate à inflação. Descontando-se o fato de que o consumidor sempre acha que os preços estão altos, há uma questão real: custos de alguns serviços, como energia elétrica e gás de cozinha, e de itens importantes para a classe média, como planos de saúde e escolas particulares, correm bem acima da inflação.

Tudo ponderado, qualquer candidatura mais próxima ao governo, para não sair logo do jogo, terá de conciliar uma defesa da gestão econômica de Temer com propostas concretas para melhorar e/ou tornar visíveis esses indicadores que dizem respeito à vida real dos eleitores. Façam suas apostas.

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.