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A herança para o próximo presidente

Apesar de muitas dificuldades, a herança econômica que o novo presidente receberá não tem apenas coisas ruins

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2018 | 19h29

Apesar de tudo, a herança econômica que o novo presidente do Brasil receberá dia 1.º de janeiro não tem apenas coisas ruins.

A pior de todas é o rombo das contas públicas. O déficit primário (despesas maiores que as receitas, exceto juros) de R$ 97,2 bilhões em um ano ou 1,43% do PIB, só tende a se alargar se não houver um equacionamento do forte desequilíbrio da Previdência Social que prevê, para este ano, déficit de R$ 291,6 bilhões, o equivalente a dois meses de arrecadação federal.

Embora tenha se reativado em alguma proporção, a atividade produtiva continua muito abaixo do esperado. O PIB deve crescer menos de 1,5% neste ano e a indústria, embora com a recuperação de 2,5% neste ano, não conseguiu tirar o atraso.

O nível de emprego preocupa. Não só pelos 12,7 milhões de brasileiros que hoje não encontram trabalho (12,1% da população ativa), mas pela perspectiva ruim. Mesmo que haja boa recuperação da economia, é improvável que a demanda de mão de obra siga na mesma proporção. É a nova escrita global determinada pela intensificação do uso de tecnologia. Sem forte crescimento econômico e alentado programa de ensino e treinamento, o Brasil corre o risco de continuar perdendo terreno para outros países.

Não faltam velhos problemas que empurram para cima o custo Brasil: a concentração de renda, a alta carga tributária, a infraestrutura ruim, a falta de segurança, a precariedade da saúde e do ensino... E por aí vai.

Outra área de preocupação não tem diretamente a ver com o Brasil, mas pode produzir estragos por aqui. Trata-se da possibilidade de retorno da recessão global, num ambiente em que os grandes bancos centrais não estarão nas mesmas condições de enfrentá-la como em 2008. Este foi tema tratado por esta Coluna na edição de domingo passado. O risco é de derrubada dos preços das commodities exportadas, disparada das cotações do dólar no câmbio interno, rejeição dos títulos brasileiros e aumento do protecionismo global.

Convém não desprezar a emergência de novas incertezas na área política global, hoje manifestadas pelo acirramento do nacionalismo xenófobo e pelo ressentimento das classes médias.

Em compensação há fatores altamente positivos na economia, que não podem ser desprezados, mesmo diante de um recrudescimento da crise.

As contas externas estão em excelente estado. É insignificante o déficit em Transações Correntes, que é a conta que mede o fluxo de pagamentos em mercadorias e serviços para dentro e fora do País (mede receitas e despesas em moeda estrangeira). É de menos de 1% do PIB e vai largamente compensado pela entrada de capitais. O colchão de reservas externas é de US$ 380 bilhões, correspondente a dois anos e meio de importações. É uma situação tão confortável que torna altamente improvável uma fuga de capitais, fator que poderia produzir um enfarte da economia.

A inflação de 4,5% em 12 meses, dentro da meta estabelecida pela política de juros, é outro ponto positivo da atual ficha de saúde econômica do País. Nesse campo, é só seguir a atual política.

Interminável pesadelo de crises anteriores no Brasil era a situação dos bancos. Nunca se sabia que banco quebraria na semana seguinte: se o Econômico, se o Bamerindus, o Nacional ou o Noroeste. No momento, o sistema financeiro esbanja saúde e não tira o sono de nenhum correntista.

E, ao contrário da falta de perspectivas que prostra certos países emergentes, o Brasil conta com dois setores à beira da exuberância, que podem produzir riquezas, empregos e renda. São eles, o agronegócio e petróleo. Basta que o novo governo não atrapalhe e colabore com regras estáveis de jogo. 

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