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A hora das 'cleantechs'

O caminho está aberto para startups com foco em sustentabilidade - o planeta agradece

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 04h00

O Acordo de Paris é um dos principais marcos no combate aos efeitos das mudanças climáticas causadas principalmente pela emissão de gases que contribuem para o chamado “efeito estufa”, fenômeno que vem causando o aquecimento global com consequências potencialmente devastadoras. Dos 196 países que participaram das discussões, 191 ratificaram o acordo (ficaram de fora Irã, Turquia, Eritreia, Iraque, Líbia e Iêmen), que foi aberto para assinaturas no Dia da Terra (22 de abril) de 2016 e entrou em vigor no dia 4 de novembro do mesmo ano.

A forma estabelecida para que as diversas nações sinalizem seus respectivos compromissos no combate às mudanças climáticas foram as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (ou Nationally Determined Contributions). A NDC Partnership (ou Parceria CND) é uma iniciativa global estabelecida com o objetivo de auxiliar os países tanto no atingimento de suas metas quanto no combate aos efeitos nefastos causados pelo aquecimento global.

Mais de três décadas antes do Acordo de Paris, mais precisamente em 1982, foi fundado o World Resources Institute (WRI, ou Instituto de Recursos Globais). Trata-se de uma organização de pesquisa sem fins lucrativos com foco em sete áreas: alimentos, florestas, água, energia, clima, oceanos e cidades. São mais de 1.200 funcionários e escritórios em doze países (inclusive no Brasil). O WRI, juntamente com a NDC Partnership, Banco Mundial, Stockholm Environment Institute (SEI), London School of Economics and Political Science, Nações Unidas e outras entidades implementou o website Climate Watch: uma poderosa plataforma que disponibiliza dados climáticos e ferramentas de visualização.

De acordo com o site, as emissões de gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas aumentaram 50 vezes desde meados do século XIX. O setor de energia representa cerca de três quartos das emissões globais, com destaque para a geração de calor e eletricidade (responsável por 31,9% do total de emissões de gases de efeito estufa), seguida por transporte (14,2%) e manufatura e construção (12,6%). Geograficamente, este processo é bastante concentrado: 64% das emissões vêm de apenas 10 países, enquanto os 100 menores emissores contribuíram com menos de 3%. 

Historicamente, gerar eletricidade utilizando combustíveis fósseis era mais barato do que gerar eletricidade através de fontes renováveis, mas essa realidade mudou significativamente nos últimos dez anos, conforme dados compilados no relatório Levelized Cost of Energy and Levelized Cost of Storage 2019 (algo como “Custo nivelado de energia e custo nivelado de armazenamento 2019”), produzido pelo Lazard, maior banco de investimentos independente do mundo e fundado em 1848. A ideia por trás do uso da métrica “nivelada” é embutir tanto as receitas obtidas com a venda da energia produzida como os custos do investimento para efetivamente gerar essa energia.

Os resultados da análise, com foco no período entre 2009 e 2019, mostram que o custo da eletricidade gerada por carvão caiu apenas 2% em dez anos. No caso da eletricidade gerada por usinas nucleares, observou-se um aumento de 26%. Entretanto, fontes renováveis experimentaram forte redução no que diz respeito ao custo de geração de eletricidade: 70% para geração eólica e 89% para geração solar. Em 2019, o custo nivelado do megawatt/hora nuclear estava em US$ 155, do carvão em US$ 109, da eólica em US $41 e da geração de eletricidade através de células fotovoltaicas estava em US$ 40.

De acordo com Max Roser, fundador e diretor de pesquisa do site Our World in Data e diretor do Programa Oxford Martin sobre Desenvolvimento Global na Universidade de Oxford, a cada duplicação da capacidade instalada em energia renovável, observa-se uma queda proporcional no seu preço em função das “curvas de aprendizado”. Por isso, segundo ele, é provável que o preço da energia renovável continue caindo, enquanto a geração de eletricidade através de combustíveis fósseis deve permanecer relativamente estável.

Esta tendência abre possibilidades muito atraentes para o futuro: primeiro, criam-se as condições para o aumento de investimentos em fontes renováveis, que por sua vez irão gerar eletricidade limpa – beneficiando o meio ambiente. E segundo, com a queda no custo da energia gerada, será possível ampliar a oferta para um número maior de usuários. Startups que aplicam tecnologia em favor da sustentabilidade e do meio ambiente – as chamadas cleantechs – são o tema da nossa próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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