A hora do euro

A tragédia do colapso grego voltou ao centro do palco econômico global, promovendo sacolejos nos mercados e distribuindo interrogações entre os analistas. Três anos depois de chegar à beira do calote e do consequente rompimento com a moeda única europeia, a Grécia está de volta ao abismo do não pagamento de suas dívidas e à renúncia ao euro, assombrando as finanças internacionais. 

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2015 | 03h00

Depois de presenciar uma corrida aos caixas eletrônicos, no fim de semana, as autoridades gregas decretaram o fechamento dos bancos para a maioria das transações por uma semana e restringiram as remessas de dinheiro ao exterior. 

A coreografia financeira de última instância que a Grécia passou a dançar, desde esta segunda-feira, é típica das vésperas dos episódios de calote de dívidas públicas. Decorre da recusa da cúpula da União Europeia em prorrogar e ampliar o programa de resgate grego, depois que o primeiro-ministro Alexis Tsipras anunciou a realização de um referendo popular para decidir se os termos do novo acordo proposto devem ou não ser aceitos.

Já são mais de sete anos de aplicação pela Grécia de pesadíssimas políticas de austeridade, com consequências dramáticas para os gregos. Nesse intervalo, a economia encolheu quase 30% e o desemprego manteve desocupada um quarto da população ativa. A redução do déficit público, de mais de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) para 3,5% do PIB, porém, não foi suficiente para impedir que a dívida pública ainda representasse 180% do PIB. A contrapartida política da violenta contração econômica ocorrida foi a vitória, nas últimas eleições, do Syriza, um partido de esquerda com discurso antiausteridade.

Obrigada pelos parceiros da União Europeia a aceitar condições extremas para obter um programa de resgate, a Grécia, nos últimos anos, não conseguiu sair do círculo de ferro produzido por programas de austeridade sem poder contar com a clássica válvula de escape da desvalorização da moeda, uma vez que está atrelada ao câmbio fixo do euro. Ruma agora, salvo algum evento inesperado e extraordinário, a uma crise política, com a vitória do “sim” ao acordo com a União Europeia, ou ao default e ao rompimento com o euro, com a vitória do “não”.

Sem recursos na moeda comum, o país terá de emitir cupons, bônus ou algo semelhante, com valor de moeda, para pagar obrigações domésticas, como salário de servidores públicos e aposentadorias.

Em pouco tempo, a medida de emergência resultaria na decretação da saída do euro e a transformações dos novos papéis em moeda corrente. Com duas moedas em circulação, os poucos euros disponíveis tenderiam a ser entesourados, ao mesmo tempo em que a “moeda” nova seria passada para frente como fosse possível, o que resultaria em rápida perda de valor e, consequentemente, em explosão inflacionária. Não restaria alternativa a não ser adotar uma nova moeda e romper com o euro.

Não são exatamente questões econômicas - com o possível rompimento da Grécia com o euro - que levam ao medo de que ocorram fortes turbulências nos mercados globais e alterações significativas no cenário político europeu. 

A economia grega não representa mais de 2% do PIB da União Europeia e sua participação no comércio externo é ainda menos relevante. 

O que provoca tanto temor é o “risco moral” envolvido no calote e, como desdobramento, as incertezas de um eventual efeito dominó.

Embora do ponto de vista do equilíbrio fiscal a situação atual de outras economias problemáticas da Europa - Espanha, Portugal, Itália e Irlanda são sempre as mais citadas - seja aparentemente menos frágil, ninguém tem certeza de que esses países não se sentiriam atraídos a seguir uma Grécia em moratória unilateral e fora do euro. Muito mais depois que mudanças na correlação de forças políticas internas propiciaram a ascensão de movimentos antiausteridade. 

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