A hora e a vez dos bancos nacionais de varejo

A concentração no setor bancário brasileiro vai continuar nos próximos meses, e o comando desse processo deve ficar nas mãos dos grandes bancos de varejo nacionais, segundo analistas. A compra do Sudameris pelo Itaú, em dezembro, e a do Mercantil de São Paulo pelo Bradesco, na semana passada, mostraram a disposição das instituições brasileiras em fazer aquisições para ganhar escala, reduzir custos e aumentar a participação no mercado. Os estrangeiros, depois de uma atuação agressiva, que culminou na compra do Banespa pelo Santander, devem manter uma atitude mais cautelosa, pelo menos no curto prazo. O diretor de Serviços Financeiros da Standard & Poor´s (S&P), Daniel Araujo, destaca que os grandes bancos de varejo brasileiros são sólidos e bem estruturados. "São instituições que fizeram várias aquisições ao longo do tempo e parece provável que continuem sendo compradores, o que é fundamental para ganhar escala e garantir uma maior participação de mercado", afirma ele, lembrando que, neste ano, haverá a privatização de vários bancos estaduais, que tenderiam a ser comprados principalmente por instituições brasileiras. Na quinta-feira, o Banco do Estado do Amazonas (BEA) vai a leilão, com preço mínimo de R$ 182,9 milhões. O Bradesco foi o único banco a depositar as garantias. O Itaú desistiu. Para o sócio responsável pela área de finanças e bancos da KPMG, Marcelo Bessan, os estrangeiros tendem a ficar mais retraídos nos próximos meses. Primeiro, porque instituições como os espanhóis Santander e BBV Banco e o inglês HSBC vão amargar perdas expressivas na Argentina. Além disso, a desaceleração da economia nos EUA e na Europa também inibe investimentos. O diretor-presidente da EFC, Carlos Coradi, entende que alguns estrangeiros cometeram erros de avaliação na hora de fazer aquisições no Brasil. Esse teria sido o caso do banco português Caixa Geral de Depósitos, que comprou o Bandeirantes, enfrentou dificuldades e vendeu a instituição ao Unibanco, em julho de 2000, por R$ 1,2 bilhão em ações. Depois da venda do Sudameris e do Mercantil, não há mais alvos óbvios no setor privado. Alguns analistas citam o mineiro Mercantil do Brasil, que tem ativos de R$ 3,338 bilhões, como um banco que pode ser comprado nos próximos meses. Os controladores negam que pretendam vender a instituição, mas os especialistas vêem pouco espaço para a sobrevivência de bancos médios que atuam no varejo - para eles, essas instituições só vão sobreviver se encontrarem um nicho de mercado. A baixa rentabilidade dos bancos médios de varejo em comparação com os grandes parece comprovar essa idéia: os números de setembro de 2001 mostram que o Sudameris teve uma rentabilidade sobre o patrimônio líquido de 9,5%, enquanto o Itaú atingiu 37,1%, de acordo com a Austin Asis. O diretor-presidente da ABM Consulting, Alberto Borges Matias, vê com ceticismo até mesmo a possibilidade de sucesso dos bancos médios com nicho de mercado definido. "Hoje, serviços e produtos bancários são commodities. Qual é o nicho em que os grandes bancos de varejo não atuam?" Matias entende que os grandes bancos nacionais precisam ganhar muita escala para sobreviver ao processo de redução de margens que deverá ocorrer quando os juros recuarem para níveis internacionais. Nesse cenário, ele acredita que há espaço para apenas um grande banco brasileiro, apostando que poderá ocorrer uma fusão entre Bradesco, Itaú e Unibanco, o que seria importante para os bancos conseguirem escala para competir no mercado internacional. Essa visão, porém, não é compartilhada por muitos analistas. Araujo acha que dificilmente os maiores bancos do País serão vendidos nos próximos três anos. O mais provável é que os grandes comprem os pequenos e médios, e que estes se associem entre si.

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