A ilusão da política industrial

Nosso maior erro foi no tipo de estímulos dados ao setor privado

Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2018 | 05h00

Entre 1950 e 1980, o Brasil cresceu em média 7,5% ao ano, e entre 1980 e 2017 a média foi de apenas 2,5%. Tornamo-nos prisioneiros do que Regis Bonelli definiu como “a armadilha do baixo crescimento”. Nosso desempenho foi ainda pior quando é avaliada e evolução do PIB per capita. Medido a preços garantindo a paridade de poder de compra, em 1980 o PIB per capita do Brasil se situava pouco acima de 40% do dos EUA, caindo para perto de 25% em 2017; em 1990 fomos superados pela Coreia, que atualmente se aproxima da renda per capita do Reino Unido; em 2005 fomos superados pela Turquia, e em 2016 pela China.

Nos “30 anos milagrosos” – de 1950 a 1970 – o carro chefe do crescimento brasileiro foi uma política industrial, que abrangeu o governo Kubitschek e prosseguiu nos anos 70 com os estímulos às empresas. Do ponto de vista da gestão macroeconômica aquele período foi um desastre – o que é conhecido. O que nem todos sabem é que uma questão demográfica contribuiu para aquele crescimento que muitos ainda teimam em atribuir apenas aos méritos de uma política industrial, que teve muito mais erros do que acertos.

No governo Kubitschek o País abusou do financiamento inflacionário do déficit público. As reformas do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), em 1966, deram um passo à frente, mas o País caiu na ilusão de que era possível conviver com a inflação, com a indexação de preços e salários e câmbio levando à inflação inercial, que somente foi dominada com o Plano Real. Nos anos 1970, erramos ao financiar os investimentos com dívida externa, e quando em 1979 Volker elevou a taxa de juros, o Brasil – junto com muitos outros países emergentes – chegou ao default externo. A herança destas crises explica em parte por que nos tornamos prisioneiros da armadilha do baixo crescimento, mas não a esgota.

O que os defensores da política industrial teimam em ignorar é que o forte crescimento do PIB entre 1950 e 1980 teve uma grande contribuição de causas “demográficas” que nunca mais se repetirão. Em média a população crescia acima de 2,5% ao ano, e a população em idade ativa crescia ainda mais, o que eleva o crescimento do PIB como um todo.

O que ocorreu com a produtividade? Ellery (Desafios para o Cálculo da Produtividade total dos Fatores – Ipea) mostrou que, entre 1960 e 1980, a produtividade total dos fatores no Brasil cresceu mais do que a da China, Índia, Coreia do Sul e México. No entanto, parte importante desse crescimento veio da realocação da população entre o campo e as atividades urbanas. O diferencial de salários entre a agricultura e as atividades urbanas atraía a população que migrava para as cidades. Em 1950, mais de 60% da população estava empregada na agricultura, caindo verticalmente em seguida.

Ferreira e Veloso (O Desenvolvimento Econômico Brasileiro no Pós-Guerra) quantificaram os efeitos dessa mudança, concluindo que ela contribuiu com perto de um terço do aumento da produtividade do trabalho. Embora esse processo tenha continuado nas décadas seguintes, no início dos anos 1980, a participação do emprego na agricultura já era pequena, caindo o peso da mudança estrutural na determinação da produtividade do trabalho. Deste ponto em diante, a produtividade do trabalho somente poderia crescer com o aumento da densidade de capital por trabalhador e com os investimentos em capital humano, através da educação.

Nosso maior erro, contudo, foi no tipo de estímulos dados ao setor privado. Contrariamente à Coreia, cuja política industrial incentivou as exportações, o Brasil protegeu as indústrias voltadas ao mercado interno, fechando sua economia. Os coreanos buscaram o aumento da competitividade, investindo em capital humano elevando o grau de educação, o que permitiu a adoção de técnicas mais eficientes, enquanto no Brasil usávamos a proteção através de tarifas e índices de conteúdo nacional para proteger produtores ineficientes, que eram premiados com subsídios e isenções tributárias.

Nos últimos anos corrigimos muitos defeitos da macroeconomia, mas ainda estamos longe de aprender como usar os estímulos corretos para aumentar a produtividade.

* EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. ESCREVE NO PRIMEIRO DOMINGO DO MÊS

 

Mais conteúdo sobre:
indústria

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.