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A importância geopolítica dos Brics

O economista-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs, Jim O'Neil, foi o primeiro a chamar a atenção do mundo, em 2001, para quatro países com capacidade de se tornarem potências econômicas em médio prazo. Ele chamou de Bric o conjunto formado por Brasil, Rússia, Índia e China, que se mostravam como forças econômicas com chances de ocupar espaço cada vez maior no G-20, o grupo das 20 maiores economias mundiais.

MÁRIO, GARNERO, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2014 | 02h08

A partir de 2011, já reconhecido pela 61.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, o grupo recebeu a adesão da África do Sul e passou a ser chamado de Brics. Desde então, as suas movimentações políticas e diplomáticas passaram a ser discutidas no âmbito dos cinco países.

Segundo dados do Itamaraty, em 2003 os quatro países respondiam por 9% do PIB mundial; em 2009, essa participação chegou a 14%; e hoje deve superar a barreira dos 20% das riquezas totais do planeta.

Os cinco países são grandes produtores de trigo, soja, minérios e petróleo, além de terem incorporado enormes contingentes de novos consumidores. Na China, mais de 300 milhões de habitantes saíram da pobreza absoluta, e, no Brasil, 40 milhões migraram para uma emergente classe média, impulsionando as indústrias automobilística, de eletrodomésticos e eletrônicos, entre outras. Aliás, a ascensão social de suas populações é objetivo comum aos integrantes do Brics, dos quais quatro países estão entre as dez maiores economias do mundo.

Vale observar que, apesar da crise econômica mundial de 2008, os mercados desses cinco países continuaram crescendo, particularmente o da China. Ainda que modesto, até o Brasil vem apresentando crescimento, mesmo que, entre os Brics, seja o país de desempenho mais acanhado. No ano passado, o crescimento de apenas 0,9% colocou o Brasil na rabeira dos outros quatro. A China evoluiu 7,8%; seguida por Índia, com 5%; Rússia, com 3,4%; e África do Sul, com 2,5%.

A previsão de crescimento do PIB dos países-membros do Brics para 2014 também é desabonadora. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o Brasil terá crescimento de 2,5%, inferior ao dos outros quatro países. A China liderará a lista, com previsão de crescer 7,3%; seguida pela Índia, com 5,1%; Rússia, com 3,4%; e África do Sul, com 2,9%.

Entre as razões para o fraco desempenho de nossa economia ante os demais membros do Brics, não é difícil de apontar a infraestrutura como o nó górdio a frear as tentativas do Brasil de voar mais alto. Elevada carga tributária e intervenção do Estado, além do chamado custo Brasil, têm inibido o investimento estrangeiro e, como consequência, faltam recursos para alavancar um crescimento econômico sustentável. Nossos concorrentes estão nos ultrapassando. Até o fim dos anos 80, o Brasil, juntamente com o Japão, foi uma das nações que mais se desenvolveram no século 20. Já neste século, o Brasil está na lanterna do crescimento econômico.

Esses são alguns dos temas a serem examinados no seminário sobre os Brics que o Fórum das Américas realizará em Nova York no início de abril, reunindo figuras de destaque do mundo empresarial, político e acadêmico de todo o mundo. O objetivo é que essas reflexões auxiliem e lancem luzes sobre estratégias e mecanismos que influenciem positivamente o desenvolvimento dos Brics e, particularmente, do Brasil.

No jogo da globalização, os países do Brics têm hoje um imenso poder de negociação. Juntos, correspondem a 19% do PIB do mundo e cerca de 42% da população mundial. De acordo com a The Economist, os Brics foram responsáveis por 55% do crescimento global nos últimos três anos.

O clube mostra-se como uma sólida potência, mas, num olhar mais atento, há ainda muitas contradições e a necessidade de um contínuo processo de consolidação de posições e realidades. O Brasil, em particular, dá sinais de timidez e fragilidade ao conjunto. É necessário, pois, reorientar a nossa rota de modo a permitir que o nosso país se posicione na vanguarda deste clube.

É PRESIDENTE DO FÓRUM DAS AMÉRICAS

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