Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

A inadequada Convenção 158 da OIT

Dentre as reivindicações das centrais sindicais no Brasil para o ano de 2015, volta à cena a da ratificação da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trata-se de norma que endurece as regras sobre demissões sem justa causa e que está em debate, no País, há mais de 20 anos.

Sérgio Amad Costa*, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2015 | 02h03

O artigo 4o dessa convenção reza que "não se dará término à relação de trabalho de um trabalhador a menos que exista para isso uma causa justificada relacionada com sua capacidade ou seu comportamento ou baseada nas necessidades de funcionamento da empresa, estabelecimento ou serviço". Portanto, a empresa só pode demitir o empregado por razões de mudanças tecnológicas, econômicas, estruturais, analógicas ou por mau desempenho do profissional.

Essa norma, além de restringir a liberdade de gestão da empresa quanto à dispensa de empregados, faz surgir uma burocracia dispendiosa para atender a todas as suas determinações. Ela estabelece, para a possível demissão do trabalhador, trâmites como: necessidade de comprovação da companhia competente, justificativa do desligamento, com o aviso em tempo hábil, abertura de negociação com os representantes do sindicato e notificação prévia da autoridade responsável.

Durante o processo de desligamento do profissional, ele tem o direito de contestar. E as etapas burocráticas podem se repetir várias vezes. Caso aconteça algum impasse, recorre-se à Justiça do Trabalho. Nas situações em que o juiz considerar que os motivos alegados pela empresa não procedem, o empregado permanece na companhia e recebe uma indenização pelo ocorrido.

Além do ônus financeiro de todo esse processo para a empresa, vale observar o tempo gasto com esses procedimentos. Os países que aderiram à Convenção 158 levam cerca de seis meses ou mais para efetivar um desligamento. Além disso, o clima interno da companhia fica abalado com a situação de demissão ou não demissão, prejudicando a produtividade da organização.

Cumpre lembrar que no Brasil já há formas de desestimular a dispensa sem justa causa. Para isso existem o aviso prévio de 30 dias e a indenização de 40% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Além do mais, as firmas, em geral, não têm interesse em demitir sem motivo, à medida que os profissionais que fazem parte de seus quadros são treinados, direta ou indiretamente, pelas próprias empresas para desempenharem suas funções. Essa capacitação gera também custos para a companhia.

A OIT tem mais de 180 convenções, e 97 delas foram ratificadas pelo Brasil. Entre todas essas normas da OIT, 8 foram classificadas, pelo seu Conselho de Administração, como fundamentais. O País aderiu a 7 delas. A única que não foi ratificada pelo Brasil foi a Convenção 87, relativa à liberdade sindical. Quanto a ela, boa parte dos dirigentes sindicais sempre se pôs contra a sua ratificação, pois exigiria mudança na nossa legislação, pondo fim às obrigatoriedades da unicidade sindical e dos tributos sindicais. Mas isso esses líderes trabalhistas não querem. Só para ter uma ideia da importância dessa convenção, ela recebeu a adesão de mais de 150 países, lembrando que a OIT tem 185 signatários.

E, no que concerne à Convenção 158, quantos países aderiram? Não mais do que 35, e das nações mais desenvolvidas constam apenas França, Portugal, Espanha, Finlândia e Suécia. Vale ressaltar, também, que esses países tiveram de criar outros tipos de contratação, para suportar o engessamento provocado por tal norma.

O fato é que a Convenção 158 da OIT não é um exemplo de sucesso. Ela foi criada em 1982, portanto já tem mais de 30 anos, tempo suficiente para os países observarem que ela não é boa para suas economias. O pequeno número de adesões a essa norma é a própria resposta à sua inadequação. É notório que sua ratificação apenas inibe a criação de vagas para o trabalho. E é de novos postos de emprego que o País agora, mais do que nunca, vai precisar.

*É PROFESSOR DE RECURSOS HUMANOS E RELAÇÕES TRABALHISTAS DA FGV-SP

Tudo o que sabemos sobre:
OITmercado de trabalho

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.