KAREN BLEIER/AFP
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A indignação dos banqueiros

Juro baixo é ruim para o setor financeiro, que reagiu indignado à decisão do Fed de manter a taxa de juros inalterada

Paul Krugman, The New York Times

23 Setembro 2015 | 09h43

Na semana passada, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) decidiu não elevar os juros. Sua decisão foi correta. Na realidade, pertenço ao grupo de economistas que se perguntam por que motivo chegamos até mesmo a cogitar em elevar os juros neste exato momento.

Mas a resposta do setor financeiro pode explicar o que está ocorrendo. O Fed está sempre em contato com os banqueiros - e os banqueiros reagiram à sua decisão com total indignação. Para os que tentam compreender a economia política da política monetária, foi uma revelação. De repente, grande parte do que parecia um enigma nesta discussão começou a fazer sentido: basta seguir o dinheiro.

Os princípios básicos da política de juros são bastante simples, e remontam a mais de um século ao economista sueco Knut Wicksell. Ele afirmava que os bancos centrais como o Fed ou o Banco Central Europeu deveriam estabelecer juros em seu patamar "natural", definido em termos do que ocorre com a inflação. Se os juros são demasiado baixos, a inflação acelerará; se os juros são demasiado elevados, a inflação cairá e talvez se torne uma deflação.

De acordo com este critério, é difícil dizer que os juros são demasiado baixos. A inflação é baixa há anos. Particularmente, a medida da inflação preferida pelo Fed, que exclui os preços voláteis dos alimentos e da energia, não chegou a atingir sua própria meta de 2%, e não dá sinais de subir.

É verdade que os juros - perto de zero para as taxas de curto prazo que o Fed controla mais ou menos diretamente - são muito baixos em termos históricos. E é interessante perguntar por que motivo a economia precisaria de juros tão baixos. Mas a evidência diz que ela precisa. Se vocês acham que os juros são muito baixos, onde está a inflação?

Entretanto, o Fed tem sido alvo de constantes criticas por sua política de juros baixos. Por quê?

A resposta é que a história muda continuamente. Em 2010-2011, os críticos do Fed fizeram terríveis advertências a respeito da proximidade de uma inflação. Se a inflação deixasse de se materializar, deveríamos esperar alguma mudança de tom. Ao contrário, os que exigiam juros mais elevados para afastar o perigo da inflação continuam exigindo juros maiores, mas por razões diferentes.

A justificativa hoje é a "estabilidade financeira", a afirmação de que juros baixos alimentam bolhas e catástrofes.

Suponho que esta última desculpa para o aumento dos juros poderia ser correta. Mas é impressionante como a justificativa de aumentos dos juros se tornou complicada e dúbia. Prefiro imaginá-la da seguinte maneira: Se os políticos de tendência esquerdista oferecessem justificativas lógicas para as suas políticas que dependessem ainda que minimamente de uma lógica precária e evidências frágeis, seriam desancados por sua irresponsabilidade. Por que as pessoas levam isto tão a sério?

Bem, quando vemos justificativas lógicas mudando continuamente para reivindicações políticas que nunca mudam, devemos apostar que o motivo é outro. E a indignação dos banqueiros por causa dos juros - juntamente com a queda das ações dos bancos que se seguiu à decisão do Fed de não elevá-los - constitui um indício poderoso da natureza de tal motivo. São os lucros dos bancos, idiota.

Muitas pessoas foram levadas a se equivocar, neste caso, ao tentar imaginar se o dinheiro fácil é bom ou ruim para os ricos em geral. Trata-se realmente de uma questão complicada. Entretanto, o que está claro é que os juros baixos são ruins para os banqueiros.

Ocorre que os bancos lucram com os depósitos e emprestando os recursos a juros mais altos. E estes negócios ficam apertados quando os juros são baixos: os juros que os bancos podem cobrar sobre os empréstimos caem, mas os juros sobre os depósitos só podem cair também. A margem de juros líquidos - a diferença entre os juros que o banco recebe sobre os empréstimos e os juros que eles pagam sobre os depósitos - caíram consideravelmente nos últimos cinco anos.

A resposta adequada dos responsáveis pelas decisões políticas a esta observação deveria ser: "E daí?" Não há motivo para acreditar que o que é bom para os banqueiros seja bom para o país. Mas os banqueiros são diferentes de vocês e de mim: eles têm muito mais influência. As autoridades monetárias vivem se encontrando com eles, e em muitos casos esperam ocupar cargos como os deles quando se encontrarem do outro lado da porta. Além disso, supõe-se que os banqueiros têm uma especialidade em política econômica, embora nada do que se ouve respalde esta convicção (Contudo, os banqueiros têm alfaiates excelentes).

Portanto, não deveríamos nos surpreender ao ver instituições que atendem aos banqueiros, sem falar em grande parte da imprensa financeira, distribuírem justificativas elaboradas para um aumento dos impostos que não tem sentido no que se refere à economia básica. E o debate dos últimos meses, em que o Fed pareceu estranhamente ansioso por elevar os juros apesar das advertências de pessoas como Larry Summers de que seria um erro terrível, sugere que até as autoridades monetárias americanas não estão imunes a isso.

Mas, na semana passada, o Fed fez a coisa certa: nada. E a gritaria dos banqueiros não deve ser tomada como uma razão a se reconsiderar, mas como uma demonstração de que o clamor por juros mais altos nada tem a ver com o interesse da sociedade. Tradução de Anna Capovilla

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