‘A inflação está à espreita se o PIB crescer forte’

Para Loyola, BC não pode dar mais gás para acelerar; ‘agora é preciso deixar a economia correr na velocidade normal’

Raquel Landim, de O Estado de S. Paulo,

18 de agosto de 2012 | 08h14

SÃO PAULO - O Brasil começou a se recuperar do impacto da crise global, refletindo a queda de juros e os incentivos tributários, mas não há espaço para grandes voos. "A inflação está à espreita se a economia voltar a crescer forte", diz o economista Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada.

Ex-presidente do Banco Central, Loyola acredita que os dados mais recentes do varejo e do emprego indicam que o País vai crescer a um ritmo, anualizado, de 4% a partir do fim do ano. Esse patamar está próximo ao limite para não pressionar os preços.

"O que o BC tem de fazer é não dar mais gás para a economia acelerar. Agora é preciso deixar correr na velocidade normal", diz. Ele acredita que a autoridade monetária já deu sinais que vai promover mais um corte de juros, mas, eventualmente, em 2013, terá de começar a subir a taxa. A seguir trechos da entrevista.

A economia brasileira está começando a se recuperar?

Os dados mais recentes do emprego e do comércio mostram que pode ser o início da recuperação. Essa recuperação está sendo um pouco mais demorada que o esperado. Mas, em função da redução dos juros, da descompressão do crédito e dos incentivos tributários, virá em algum momento.

As vendas no varejo cresceram em função da queda do IPI para os carros. Pode ser apenas uma antecipação de compras?

Parte da recuperação das vendas tem a ver com incentivos transitórios, mas há outros indícios que mostram uma certa recuperação. É claro que com apenas um dado mensal isolado não dá para garantir que a recuperação está assegurada. Só que, tendo em vista tudo que foi feito pelo governo, não há porque não antecipar que o segundo semestre será bem melhor que o primeiro.

Os economistas dizem que o modelo de economia puxado pelo consumo esgotou, porque as famílias estão endividadas. Mas as vendas do varejo voltaram a subir. Essa tese está errada?

Não. Basta olhar a relação crédito/PIB para ver a diferença. Hoje, o crédito está muito mais presente na vida das famílias. O espaço para que o incentivo ao crédito eleve o consumo é menor. O que não quer dizer que não exista algum espaço. Na medida em que reduz o custo e aumenta os prazos, também se cria condições para as pessoas se endividarem mais.

Está havendo uma retomada do crédito puxada pelos bancos públicos? Os bancos privados vão perder espaço?

A descompressão é generalizada, mas os dados indicam que os bancos públicos estão mais agressivos, principalmente a Caixa. Só o tempo dirá quem tem razão. A tendência da inadimplência agora é de queda. Os empréstimos mais recentes estão sendo pagos em dia. O que houve foi um episódio restrito ao segmento de veículos, que parece estar superado.

A indústrias também deve se recuperar?

A indústria é o grande ponto de interrogação. Devemos esperar uma certa recuperação no curto prazo, em função do desaguamento dos estoques da indústria automobilística. Mas essa recuperação se sustenta se o governo subir o IPI dos carros? Essa é a dúvida. Existe um problema estrutural, que faz com que a produção doméstica não reaja. Temos uma disputa muito grande pela mão de obra e os salários ficam pressionados. Dos setores que brigam por esses trabalhadores, a indústria é o que tem menos condição de agregar os maiores custos aos preços, porque a competição externa é forte. Vivemos um momento em que o mundo vai mal e há uma queda de preços generalizada fora do País. A recente depreciação do câmbio ajuda a indústria no curto prazo, mas não deve ter sido suficiente para resolver o problema.

A geração de vagas tinha perdido ritmo e voltou a crescer no mês passado. O mercado de trabalho continua apertado?

Apesar da produção industrial decepcionante, o mercado de trabalho continuou bastante aquecido. A geração de empregos diminuiu, mas sempre houve saldo positivo. A medida que a economia se recupera, o mercado de trabalho vai se tornar mais apertado ainda. Aliás, esse é o grande problema que o Brasil vai ter que enfrentar no ano que vem: como a recuperação vai se refletir no custo das empresas e na inflação. Em 2013, o BC vai ter que pisar no freio da economia para evitar um aquecimento excessivo.

Com a economia aquecida e preços de commodities em alta, o BC vai ter que subir juros?

Se a economia responde, é preciso interromper a queda de juros. Com relação a reversão da política monetária, provavelmente vai ocorrer no ano que vem. A inflação está à espreita se a economia voltar a crescer. O mercado de trabalho mostra sinais de quase pleno emprego. A inflação de serviços segue rodando na faixa de 7% - é muito alta. O teto da meta é 6,5% e a inflação no Brasil está acima de 5%. Não tem muito espaço para a economia crescer mais de 3,5% a 4%. Os dados já apontam para um crescimento anualizado acima de 4% a partir do fim do ano. Não é que o Banco Central tem que reduzir a velocidade da economia. O que o BC tem que fazer é não dar mais gás para acelerar. Agora é preciso deixar a economia correr na velocidade normal.

Mas a interrupção da queda de juros deveria vir já na próxima reunião do Copom?

Tem espaço para mais um corte de 0,5 ponto porcentual. Não está muito claro que essa recuperação se materializou e o BC deu sinais de que pode ir um pouco mais além.

Tudo o que sabemos sobre:
inflaçãoPIBcresceforte

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.