A inflação está viva

Na ânsia de passar confiança, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai tropeçando em contradições. Primeiramente pede, como ontem, para esquecer este ano: "2012 já se foi; não olhem para trás". Logo em seguida também proclama que a condução da política econômica deste ano foi um sucesso, porque gerou pleno emprego: "A população está feliz; nunca viajou tanto..."

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2012 | 02h06

O avanço do PIB foi mesmo um fiasco, mas, concordemos com o ministro: este não foi um tropeço apenas verde-amarelo. Tropeço quase exclusivo da economia brasileira é a soltura da inflação.

Os primeiros números de dezembro são desalentadores. No período de 30 dias terminado no dia 15 de dezembro, o custo de vida medido pelo IPCA saltou 0,69%. A partir dessa magnitude, dá para projetar a inflação de 2012 em pelo menos 5,8%.

Este é um resultado mais grave do que o fracasso do crescimento. Não dá para culpar a economia mundial por mais essa - como o governo tentou fazer ao longo deste ano. Os presidentes dos bancos centrais são quase unânimes em atestar que, nas telas de seus radares, não há sinais de inflação. Por toda parte, o avanço dos preços segue rastejante. Em alguns países, o medo predominante é que prevaleça a deflação. Enfim, nesse particular, o Brasil é uma exceção.

Não dá mais para dizer que a alta provém da estocada nas cotações das commodities agrícolas. Embora contribuam para a esticada, os preços dos alimentos nada têm a ver com o comportamento do mercado internacional. Os maiores saltos ocorreram na farinha de mandioca (mais 84,9%); no arroz (mais 37,0%); e no feijão carioca (mais 37,7%), mercadorias não negociadas na Bolsa de Chicago.

A alta também foi notável nas áreas dos serviços pessoais e dos transportes, mas o índice mais relevante é o que aponta o quanto a inflação está espalhada no mercado varejista (índice de difusão): nada menos que 67,9% dos itens que compõe o cestão de consumo do brasileiro mostraram elevação de preços.

É um equívoco culpar a flacidez da política dos juros (política monetária) pelo desarranjo. Ele é consequência da política perdulária do governo na condução das despesas públicas em ano eleitoral. A leniência fiscal não foi suficientemente compensada nem pela política de juros, que, ao contrário, foi expansionista; nem pela política cambial, que contribuiu para encarecer os importados; nem tampouco pelos artifícios que seguraram reajustes relevantes, como os dos combustíveis.

Nas últimas semanas, os dirigentes do Banco Central pareceram especialmente empenhados em conter a disparada do dólar no câmbio interno. Seu objetivo indisfarçado é evitar uma disparada ainda maior dos preços que complique a estratégia de convergência da inflação para meta (de 4,5% ao ano) - "ainda que de forma não linear". E não escondem o desconforto que lhes causa o jogo das autoridades da Fazenda, conformadas demais com o descumprimento das metas do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida).

Hoje sai o Relatório de Inflação. Quem sabe o Banco Central tenha algo de novo a dizer sobre tudo isso.

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