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A inflação não alivia

Para não apelar para esquisitices, o governo só tem dois instrumentos para o contra-ataque: austeridade nas contas públicas e aperto nos juros

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2015 | 21h00

A inflação de maio estourou todas as expectativas. O mercado, auscultado pela Pesquisa Focus, do Banco Central (BC), havia cravado 0,55%. Veio uma inflação de 0,74%. Nos últimos 12 meses não houve desvio tão grande de projeções.

Feitas as contas, nos cinco primeiros meses do ano, a inflação acumula 5,34% e, em 12 meses, 8,47%. É a inflação mais alta para o período desde 2003, ano da chegada de Lula à Presidência da República.

Em apenas dois meses (abril e maio) alcançou 1,45%, mais do que o 1,40% que o Banco Central esperava para todo o segundo trimestre. Isso mostra que o Copom também vai sendo atropelado pelas remarcações.

A velocidade da puxada dos preços aumenta as dúvidas de que o Banco Central consiga trazer a inflação para o centro da meta (4,5%) ao final de 2016, como está no principal de sua comunicação com o mercado.

Algumas análises repetiram que essa disparada é apenas o efeito da correção dos preços administrados que o governo Dilma deixou atrasados como lance de jogo para ganhar as eleições. Em maio saltaram 1,2% (veja o Confira). Mas não é toda a história. Há outros fatores puxando para cima. O índice de difusão mostra que nada menos que 70,4% dos preços apresentaram alta em maio. Ou seja, além de forte, a inflação continua espalhada e persistente, tendente a contaminar o desempenho em 2016.

Uma das razões para isso pode ser a própria dinâmica da demanda. Já que não está mais em condições de comprar bens de consumo durável (veículos e aparelhos domésticos), o consumidor vem gastando mais em comida e em cuidados pessoais. É o que pode explicar por que, apesar da recessão e do aumento do desemprego, o grupo Alimentação e Bebidas tenha acelerado do 0,97% em abril para 1,37% em maio. E o de Despesas Pessoais, de 0,51% para 0,74%.

Um dos principais efeitos da nova estocada dos preços é a perda de renda. O poder aquisitivo não acompanha o avanço do custo de vida. O outro é a perda de reservas pessoais. A inflação está derretendo o rendimento da caderneta de poupança. Nos cinco primeiros meses do ano foi de 5,34%, como já anotado, enquanto a poupança rendeu apenas 3,92%. Os fortes saques do sistema tendem a continuar. O aplicador em caderneta sente que está sendo tratado ou como masoquista ou como idiota.

Para não apelar para esquisitices, como manipulação dos preços e derrubada das cotações do dólar, o governo só tem dois instrumentos para o contra-ataque: austeridade nas contas públicas e aperto nos juros. Não há disposição política para aumentar ainda mais o arrocho fiscal. O BC não tem outra saída senão continuar a aumentar os juros e aguentar as pressões de dentro e de fora do governo para iniciar a temporada de alívio.

A questão central é o processo de recuperação da credibilidade perdida. O compromisso de que trará a inflação para o centro da meta até o final do ano que vem vai sendo questionado. Até o fim de junho, sairá o novo Relatório de Inflação, o principal documento pelo qual o BC tenta convencer os formadores de preços de que vai chegar lá. Os argumentos lá contidos tendem a perder força.

CONFIRA:

Compare, no gráfico acima, a trajetória de correção dos preços livres e dos preços administrados.

Fator arrasto

A inflação muito mais alta do que a esperada em maio não vai apenas acionar ainda mais os mecanismos de reajuste. Deve, também, puxar para cima as projeções da inflação de todo o ano. Ficou ainda mais provável uma acumulada na casa dos 9,0% (hoje a expectativa é de inflação em torno dos 8,5%). Isso pode aumentar o fator arrasto (inércia inflacionária) para 2016 e prolongar por mais tempo o aperto monetário (juros altos).

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