Ínfográficos|Estadão
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A inflação não dá sossego

Mais do que simplesmente elevada, a inflação está espalhada demais: confirma o que qualquer cidadão sente no bolso quando vai ao supermercado

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2016 | 21h00

A inflação de janeiro (evolução do IPCA) veio acima do esperado e mostrou aceleração.

Fora de 0,96% em dezembro e foi para 1,27% em janeiro. Medida em 12 meses, avançou de 10,67% (em dezembro) para 10,71% (em janeiro). São números que colocam em dúvida certas projeções do mercado de que, em março ou em abril, a inflação voltará para a casa de um dígito (abaixo de 10%).

Mais do que simplesmente elevada, a inflação está espalhada demais. Mostrou um índice de difusão de 76,8%, o que significa que mais de três quartos dos itens que compõem a cesta de consumo do brasileiro apresentaram alta em janeiro. Confirma o que qualquer cidadão sente no bolso quando vai ao supermercado.

Quem aposta na desaceleração da inflação nos próximos meses vem dando mais peso (1) para a forte redução do consumo que segue a perda de renda; (2) para a queda das cotações do dólar que baratearão em alguma coisa os importados; e (3) para o fim do processo de realinhamento dos preços administrados.

(Este parêntesis está sendo aberto para quem não está familiarizado com essas minudências técnicas. Preços administrados são aqueles cujos reajustes dependem de decisão do governo, como conta de luz, telefone, combustíveis, tarifas de ônibus e de metrô, etc. Esses preços ficaram achatados ao longo de 2014 porque foi o jeito que o governo encontrou para captar o voto do povão. Em 2015, houve a descompressão, quase todos esses preços foram atualizados e puxaram a inflação. Pouca coisa foi deixada para trás e isso poderia indicar inflação mais baixa em 2016.)

Mas há fortes dúvidas de que esses fatores baixistas prevalecerão sobre os aceleradores da inflação. A inércia é um deles. É a inflação que aumenta porque a inflação é alta. Como a economia está fortemente indexada (reajustes automáticos de preços e salários), há forte predisposição a reajustes. O próprio pagador deixa de questionar o aumento de preços.

Outro fator que puxa pela inflação é a insegurança geral que leva empresas e pessoas físicas a se defenderem das perdas de patrimônio e de renda com reajustes mais altos.

Não dá para ignorar outro agente de inflação, que é a desordem fiscal. Como continua gastando muito mais do que arrecada, o governo produz renda que se reverte em consumo e em alta de preços. Além disso, mais impostos, como os que pretende o governo e como os que vêm sendo cobrados pelos Estados, também encarecem mercadorias e serviços.

Na última reunião do Copom, o Banco Central apostou em que a inflação vá desinchar. Por isso, manteve os juros básicos (Selic) nos 14,25% ao ano, entendendo que o enfraquecimento do consumo e da atividade econômica trabalhará nessa direção.

O governo segue sem estratégia clara para conter o rombo das contas públicas. Dá ouvidos para esquisitices como a da definição de bandas móveis para o superávit primário e não aponta para uma meta clara e realizável.

Ou seja, nesse quadro de aumento das incertezas não dá para se ter clareza sobre o futuro da inflação.

CONFIRA

No gráfico, a evolução tanto dos preços livres como dos administrados.

Fraqueza

Numa semana em que as luzes de advertência se acenderam no mercado internacional, a informação divulgada pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos de que foram criados apenas 151 mil empregos em janeiro ajudou a puxar pelo pessimismo. É indicação de a que fraqueza da atividade econômica nos Estados Unidos se soma à do aumento da inadimplência nos bancos. É o consumidor superendividado num momento em que a renda tende a cair.

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