Divulgação FGV/ Bianca Gens
André Braz, coordenador de índices de preços da FGV.  Divulgação FGV/ Bianca Gens

‘A inflação vai continuar batendo à nossa porta até abril do ano que vem’, diz economista

Para André Braz, alívio no IPCA, que ficou em 1,25% em outubro, só deve começar a ser sentido no bolso do consumidor com o fim a bandeira escassez hídrica na conta de luz, prometida pela Aneel a partir de maio

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 14h32

A inflação não deve dar trégua para o brasileiro até o início do segundo trimestre de 2022, com índices mensais na casa de 1% até janeiro e fevereiro. “A inflação vai continuar batendo à nossa porta até abril do ano que vem”, prevê o coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz. O alívio, segundo o economista, deve começar a ser sentido no bolso do consumidor com o fim da bandeira escassez hídrica na conta de luz, prometida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a partir de maio.

Até lá, a pressão nos preços deve continuar. Para este mês, por conta dos reajustes dos combustíveis já anunciados no final de outubro, Braz espera um índice em torno de 1%. Em dezembro, a entrada do 13º salário deve garantir preços pressionados, mesmo com a economia fraca. Fora isso, janeiro e fevereiro serão marcados por gastos de férias, reajustes de tarifas de transporte público e de mensalidades escolares, da ordem de 8% a 10%, que vão  carregar a inflação deste ano para 2022. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

 

Como o sr. avalia  a alta de 1,25% da inflação de outubro?

Ficou acima do esperado. Eu projetava algo em torno de 1%. Mas tivemos algumas surpresas. Os serviços de táxi por aplicativo, por exemplo, subiram 19%. Uma alta dessas é muita coisa, ainda que se justifique por causa do aumento dos combustíveis. Também houve aumentos das passagens aéreas, já sinalizado no IPCA-15, refeição fora de casa, lanche. É a combinação da alta dos alimentos, com energia elétrica e também a volta das pessoas às lojas, o que ajuda a promover os repasses de aumentos de custos para os preços. 

No IPCA de outubro houve alta em todos os grupos, isso mostra descontrole da inflação?

Não. O descontrole inflacionário impõe um ritmo de reajustes muito mais forte do que o atual. O que há é um contágio. Os aumentos de preços dos combustíveis e da energia elétrica ajudam a espalhar a inflação para praticamente todos os grupos de preços. Ainda que a energia elétrica  tenha concentrado seu efeito máximo na inflação de setembro, existem reflexos indiretos  que contaminam  a prestação de serviços, a produção industrial. No caso da alta do diesel, é a mesma história. Também tivemos uma crise hídrica que não só afetou a conta de luz, mas também trouxe problemas para o campo, com quebra de safra de cana e derivados, no caso do etanol. Isso tem efeito sobre a gasolina, porque 27% da gasolina é álcool anidro.

Até quando vamos ter índices de inflação tão elevados?

Acho que a inflação vai continuar batendo à nossa porta até abril do ano que vem. A partir de maio, com a ajuda da energia elétrica, ela começa a desacelerar. A queda no preço da energia elétrica foi prometida pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) a partir de maio, com o fim da bandeira de escassez, que é a mais cara. A imposição dessas bandeiras fez a energia elétrica subir quase 30% este ano. Tirando esse impacto, desoneramos a cadeia produtiva: fica mais barato produzir, prestar serviços e o consumidor terá uma conta de luz menor. Enquanto os energéticos  (eletricidade e combustíveis) estiverem subindo, isso vai pressionar o IPCA. E esses aumentos não vão parar em outubro. Temos aumentos contratados para novembro, porque no final do mês passado o governo anunciou  reajuste do diesel e da gasolina. Ambos vão continuar botando lenha na fogueira, com efeitos diretos e indiretos. Vamos ter um novembro bem inflado, com taxa em torno de 1%.

O sr. acha que teremos inflação mensal na casa de 1% até abril?

Acredito que a inflação mensal na casa de 1% vai durar até janeiro, fevereiro. Em dezembro, a demanda será mais forte por conta do pagamento do 13.º salário, mesmo com a economia mais fraca. Janeiro é um mês de férias, com gastos em viagens. Em fevereiro a pressão virá de tarifas públicas importantes, como transportes coletivos, e das mensalidades escolares. Os reajustes das escolas já estão vindo: uns com alta de 8%, outros com 10%. Estão muito próximos da inflação prevista para este ano.

Com o resultado de outubro, como fica a previsão para o ano?

Estava prevendo uma inflação de 9,5% para 2021. Mas com esse resultados, acho que pode chegar a próximo de 10%.

Com esse resultado de outubro, o  Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) deve subir  mais de 1,5 ponto os juros na próxima reunião?

Acredito que já deveria ter feito isso na reunião passada.  O resultado de outubro mostra uma persistência maior da inflação e acho que há maior chance de que ele faça um aumento maior. E quanto maior o aperto monetário, menor a chance de crescermos de forma robusta no ano que vem.

É factível atingir a meta de 3,5% para o ano que vem?

É muito difícil que a meta do ano que vem seja atingida exatamente pela forma que o governo escolheu  para conduzir a sua política fiscal. Será muito difícil, a menos  que algo nos favoreça. Para 2022, acho que uma inflação em torno de 5% está muito mais alinhada com a realidade atual, do que uma inflação de 3,5%. Inflação alta com baixo crescimento sinalizam a possibilidade de termos estagflação em 2022.

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Inflação acelera e IPCA acima de 10% no fim do ano entra no radar do mercado

Com alta da gasolina, o índice ficou em 1,25% em outubro, o maior para o mês desde 2002, e atingiu 10,67% em 12 meses, segundo o IBGE; meta perseguida pelo Banco Central para este ano é de 3,75%

Daniela Amorim e Cícero Cotrim , O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 09h22
Atualizado 10 de novembro de 2021 | 14h33

RIO e SÃO PAULO - Sob pressão de aumentos de preços disseminados, a inflação oficial no País alcançou 1,25% em outubro, o maior resultado para o mês desde 2002, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo divulgados nesta quarta-feira, 10, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa foi a mais elevada deste ano, superando até as expectativas mais pessimistas de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam uma alta mediana de 1,06%. A aceleração fez a inflação acumulada em 12 meses chegar a 10,67% em outubro, ante uma meta de 3,75% perseguida pelo Banco Central em 2021. 

 

A surpresa fez economistas aumentarem suas projeções de inflação para este ano, alguns deles ao patamar de dois dígitos. A LCA Consultores elevou a projeção de inflação de 2021 de 9,70% para 10,0%, enquanto o Bank of American aumentou de 9,1% para 10,1%. A última vez que o IPCA encerrou o ano acima de dois dígitos foi em 2015, aos 10,67%.

A Ativa Investimentos elevou as previsões para a inflação de 2021 (de 9,10% para 9,40%) e de 2022 (de 3,90% para 4,40%). A corretora também reviu a projeção de aumento da taxa básica de juros, a Selic, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em dezembro, de 1,5 ponto porcentual para 2,0 pontos, chegando ao fim do ciclo de altas em 13,25% ao ano, considerando mais um aumento de 2,0 pontos porcentuais em fevereiro e uma alta final de 1,5 ponto porcentual em março.

Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, o aumento da inflação acumulada em 12 meses e a perspectiva de inércia para 2022 reforçam a necessidade de que o Banco Central mantenha uma ação agressiva no aperto monetário, embora não com alta superior a 1,5 ponto porcentual por reunião.

“Ainda vamos ter diversos dados importantes, incluindo o PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, antes da próxima reunião do Copom”, ponderou Rostagno. “O BC tem esse desafio de ancorar as expectativas, mas evitar jogar a economia em uma recessão”, completou.

O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, passou de 65% em setembro para 67% em outubro. A última vez em que a difusão ficou abaixo de 50%, ou seja, com menos da metade dos itens investigados com aumento de preços, foi em maio de 2020, quando foi de 43%.

“Lembrando que em maio de 2020 a gente estava num contexto completamente diferente, com queda muito forte do petróleo”, disse Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. 

 

Os combustíveis foram os principais vilões do último mês. A gasolina subiu 3,10% em outubro, o sexto mês seguido de aumentos. A alta já ultrapassa 38% apenas neste ano. Os consumidores também pagaram mais pelo óleo diesel (5,77%), etanol (3,54%) e gás veicular (0,84%). As passagens aéreas saltaram 33,86% em outubro.

O gás de botijão subiu 3,67%, a 17.ª alta consecutiva, acumulando elevação de 44,77% desde junho de 2020. A energia elétrica também voltou a subir, e as famílias ainda gastaram 1,17% a mais com alimentação, com destaque para o encarecimento do tomate, batata-inglesa, café moído, frango e queijo. No mês de outubro, houve alta de preços em todos os nove grupos que integram o IPCA, sendo que sete deles tiveram aumentos maiores que no mês anterior.

A alta de preços de bens e serviços monitorados pelo governo, como a energia elétrica e a gasolina, tem afetado diretamente a inflação, mas tem resultado também numa pressão indireta sobre outros itens, gerando uma inflação de custos, explicou Pedro Kislanov, gerente do IBGE. Para o pesquisador, a demanda tem se recuperado aos poucos, impulsionada pela reabertura da economia e pelo avanço da vacinação da população contra a covid-19. No entanto, o cenário atual evidencia pressão de uma inflação de custos, turbinada por aumentos nos combustíveis, gás e energia, além da alta do dólar.

“A gasolina tem impacto no frete, acaba afetando preços de outros itens também”, exemplificou Kislanov, lembrando que o IPCA está sendo pressionado por preços administrados, mas os alimentos também contribuem para a inflação elevada.

Dentro do índice, a inflação de serviços - usada como termômetro de pressões de demanda sobre a inflação - passou de uma alta de 0,64% em setembro para 1,04% em outubro. E a de itens monitorados pelo governo saiu de 1,93% em setembro para 1,35% em outubro.

"Essa alta nos preços dos serviços tem que ser observada com certa cautela ainda, porque os serviços prestados às famílias não têm sido a principal contribuição para a recuperação do setor de serviços", alertou Kislanov. "(A alta de preços) pode ter questões que não são relacionadas diretamente com a demanda por serviços, mas também a alta de custos", completou.

O pesquisador do IBGE cita como exemplo o encarecimento das passagens aéreas (33,86%) e do transporte por aplicativo (19,85%).

“(Passagem aérea) Tem inflação de custo, por conta da depreciação cambial, já que muitos contratos de aéreas são atrelados ao dólar, e da alta no custo dos combustíveis, a alta de querosene de aviação. E tem também inflação de demanda. Com a melhora da pandemia, houve aumento da demanda”, justificou Kislanov. “No transporte por aplicativo os fatores são parecidos. Tem aumento na circulação de pessoas e tem também aumento dos combustíveis. Esses custos acabam sendo repassados para o consumidor”, contou.

A inflação de serviços acumulada em 12 meses saiu de 4,41% em setembro para 4,92% em outubro. A inflação de monitorados em 12 meses passou de 15,72% em setembro para 17,01% em outubro, o maior patamar desde janeiro de 2016, quando foi de 17,22%.

No mês de outubro, todas as 16 regiões que integram o IPCA tiveram altas de preços. A inflação acumulada em 12 meses já alcança dois dígitos em 12 delas: Vitória (12,22%), Goiânia (11,03%), Curitiba (13,48%), Campo Grande (11,41%), São Luís (11,58%), Porto Alegre (11,92%), Rio Branco (11,94%), Fortaleza (11,34%), Belo Horizonte (10,46%), Recife (10,29%), Salvador (10,38%) e São Paulo (10,22%).

As maiores contribuições para o IPCA acumulado em 12 meses são da gasolina (2,08 pontos porcentuais), energia elétrica (1,30 ponto), gás de botijão (0,42 ponto), etanol (0,41 ponto), automóvel novo (0,38 ponto) e automóvel usado (0,28 ponto).

De janeiro a outubro, o IPCA acumula alta de 8,24%, sob pressão, principalmente, dos aumentos na gasolina (1,88 ponto), energia elétrica (0,88 ponto) e gás de botijão (0,37 ponto).  

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