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A inflação veio mais baixa, mas o santo é de barro
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Celso Ming
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A inflação veio mais baixa, mas o santo é de barro

Há fortes indicações de que a inflação continua subindo para, possivelmente, apenas se acalmar no último trimestre; a alta das tarifas de energia elétrica, dos preços da gasolina e do gás de cozinha continuam pressionando o custo de vida

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 20h15

A inflação (evolução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo - IPCA) mais baixa em junho, de 0,53% contra a de 0,83% no mês anterior, pode passar a impressão de que os preços, pressionados há alguns meses, estão sendo controlados.

Mas há fortes indicações de que a inflação continua subindo para, possivelmente, apenas se acalmar no último trimestre. Nos 12 meses terminados em junho ficou em 8,53% e, conforme avalia a maioria dos analistas, deve fechar o ano ao redor dos 6,5%. A meta deste ano é de inflação de 3,75%, com tolerância para  mais de 1,5 ponto porcentual (5,25%).

 

O Banco Central (BC) continua insistindo no diagnóstico de que a principal causa é a alta internacional das commodities (alimentos básicos, metais e petróleo) cuja causa seria o  súbito aumento da procura, num ambiente de desorganização temporária do sistema de produção e de estoques, em consequência da pandemia. Recompostos os estoques, a inflação tenderia a recuar – lá fora e aqui dentro –, calcula o BC.

Essa explicação é insuficiente para mostrar o que está acontecendo. Tudo se passa como se, mesmo durante a pandemia, a demanda global tenha se mantido firme. Há um claro aumento da demanda mundial por alimentos e matérias-primas, não só porque os governos e os bancos centrais dos países avançados despejaram muito dinheiro nos mercados, mas, também, porque as economias asiáticas, especialmente a China, vêm favorecendo a incorporação ao mercado de consumo de populações antes refugiadas na subsistência. É fator que tende a persistir e, possivelmente, a se intensificar ao longo da recuperação da economia mundial.

Aqui no Brasil, o alto desemprego e o achatamento do poder aquisitivo da população poderiam manter a demanda relativamente contida e, nessas condições, contribuir para segurar o avanço do custo de vida.

Mas há outras fontes de pressão. A mais notória provém do aumento das tarifas de energia elétrica (bandeira vermelha) em consequência da crise hídrica. Se houver geada, frutas e hortaliças puxarão pelos preços. Também estão para ser descarregados sobre o custo de vida novos reajustes da gasolina e do gás de cozinha. E não se sabe até onde irá o petróleo no mercado internacional nessa situação de forte demanda.

O câmbio é sempre surpresa. É por onde mais apanham os analistas. No final de junho, as projeções eram de baixa. Em apenas duas semanas, a alta em reais ultrapassou os 7,0%. E logo virá o impacto sobre os preços dos importados e produtos cotados em moeda estrangeira.

O setor dos serviços, o mais atingido pela pandemia, vinha com preços contidos. Agora mostram aceleração. A inflação dos serviços em 12 meses foi de 2,24%.

O BC abandonou a postura passiva e conformista. Passou a afiar seu instrumento de combate à inflação, a política monetária. Não deve parar enquanto os juros básicos, hoje nos 4,25% ao ano, não chegarem aos 6,5%. O que se discute é apenas o tamanho das próximas doses.

CONFIRA

>>> A falta de chuvas e as safras

 

Pelas novas estimativas, as safras desta temporada sofreram o impacto da falta de chuva. A Conab estima uma colheita de 260,8 milhões de toneladas de grãos, 1,5% superior que a da safra anterior. Enquanto isso, o IBGE projeta 258,5 milhões de toneladas, ou 1,7% mais alta.

O relativamente baixo aumento da produção física vai sendo amplamente compensado pelo forte aumento dos preços. Em 12 meses, a soja, por exemplo, aumentou em dólares 54%; o milho, 70%; e o café arábica, 38%.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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