A inspiração espanhola da Coca-Cola

Nuez de Kola Coca, considerada a base do refrigerante, existe até hoje em uma província na Espanha, mas apenas em bebidas alcoólicas

FABIAN VON POSER , DER SPIEGEL , O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h47

Ela é alegadamente a terra natal do refrigerante mais conhecido do mundo, mas hoje o lugar parece um tanto decadente. Ladeadas por casas colocadas à venda, as ruas de Aielo de Malferit, na Província de Valência, estão desertas. Com a geração mais nova mudando-se para cidades grandes como Barcelona e Madri para escapar do desemprego crônico, somente os idosos ainda vivem lá.

Juan Micó, de 74 anos, um homem grisalho e de óculos, usando um jaleco de laboratório branco, despeja um líquido marrom num tubo de vidro fino. Feixes de uma pálida luz solar filtram pelas janelas sujas desta fábrica, e um cheiro de madeira molhada se espalha no ar. "A noz-de-cola ralada misturada com ervas e álcool matura num jarro de argila por um mês", ele explica. "O que acontece em seguida é um segredo." E muito bem guardado. Supostamente, a receita dessa bebida alcoólica - hoje chamada Nuez de Kola Coca - é a base da Coca-Cola. Micó torna a agitar o tubo.

O líquido é extremamente doce, mais até que melaço de açúcar de beterraba. "É melhor misturá-lo com água em vez de beber puro", recomenda. "As mulheres gostam dele com leite." A primeira versão da Nuez de Kola Coca foi inventada há mais de 120 anos pelos fundadores da fábrica de Micó. Ainda hoje, pessoas vêm de longe para provar a bebida.

A história da Fábrica de Licores de Aielo remonta a 1880. A fábrica foi fundada por Bautista Aparici, Ricardo Sanz e Enrique Ortiz. Os três empresários começaram fabricando produtos de qualidade - incluindo bebidas alcoólicas com nomes sugestivos como Perfecto Amor, Lágrimas de Contribuyente e Placer de Damas.

Aparici logo estava viajando da província espanhola para feiras comerciais em Roma, Paris, Londres e Chicago. Em 1885, ele foi à Filadélfia com uma nova bebida na bagagem.

Chamada Kola Coca, era feita do fruto rico em cafeína de árvores de cola africanas e das folhas de plantas de coca peruanas, e prontamente recebeu um prêmio de inovação. Antes de partir, Aparici entregou a alguns representantes de vendas americanos algumas amostras. Talvez tenha sido coincidência, talvez não, mas apenas um ano depois o farmacêutico americano John Pemberton fez história quando inventou a Coca-Cola.

Acordo fatídico. De volta a Aielo, Micó está no seu escritório observando sua coleção enquadrada de medalhas e honrarias. A Kola Coca ganhou prêmios para a companhia em Milão em 1881, Chicago em 1883, Filadélfia em 1885, Londres em 1889 e Paris em 1900.

"Um total de 20 medalhas de ouro e 10 diplomas honorários", diz Micó com orgulho. Ele aponta para a coleção como evidência. Acredita sinceramente que a base da Coca-Cola foi inventada em Aielo de Malferit. "Era fácil copiar uma bebida naqueles dias", diz ele. "Patentes só eram registradas se um produto fosse bem-sucedido." Seus antecessores só patentearam a fórmula da Nuez de Kola Coca na Espanha em 1903. Àquela altura, porém, a Coca-Cola já estava a caminho de se tornar um ícone nos EUA.

Meio século depois, os caminhos das duas empresas finalmente cruzaram.

Quando a Coca-Cola decidiu que era hora de entrar no mercado espanhol, não havia como evitar a pequena fábrica de Aielo de Malferit. Em 1953, executivos da Coca-Cola visitaram a Espanha provinciana e adquiriram os direitos ao nome de Joaquin Juan Sanchis, que era então o dono da fábrica. Esta foi autorizada a continuar fabricando a Kola Coca, mas só na versão alcoólica. O negócio teria custado 30 mil pesetas, mas ninguém sabe o valor exato. "Era muito dinheiro", diz Micó.

Mas isso foi apenas uma fração do que poderia ter sido. Em 2011, a Coca-Cola comemorou seu 125.º aniversário como uma das marcas mais conhecidas do mundo. "Se tivéssemos uma porcentagem mínima de suas ações, seríamos milionários", observa Micó.

Nas atuais circunstâncias, seu negócio consiste de pouco mais que uma fábrica velha com a fachada descascando, o chão de pedra gasto e algumas dúzias de barris de madeira. O negócio mudou de mãos muitas vezes antes de Micó o comprar em 1971.

Ele trabalhou ali por oito anos, começando como empregado e foi subindo na hierarquia até se tornar gerente de vendas. Naquela época, a empresa tinha aproximadamente 40 empregados. Hoje, restaram apenas quatro.

"O negócio ficou difícil", diz ele. As empresas mais tradicionais fecharam, ele explica, e hoje em dia sua companhia é apenas uma atacadista.

Micó também trabalha como farmacêutico para fechar suas contas. Recentemente, sua empresa assumiu as vendas também de uma grande cervejaria espanhola.

"A fábrica de bebidas alcoólicas é apenas um hobby hoje", diz ele. "Queremos manter viva a tradição, senão ela se perderá para sempre." Micó pretende comandar a empresa por mais cinco ou seis anos. Aí seu filho José Juan assumirá. "Depois disso, este capítulo da história provavelmente chegará ao fim de uma vez por todas", diz Micó. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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