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A ironia de Julian Assange

Antes de enviar qualquer texto ou imagem que pode prejudicá-lo, pense duas vezes

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 05h00

O vazamento feito pelo WikiLeaks de segredos da CIA, no início da semana, é no mínimo tão importante quanto aquele do analista Edward Snowden, em 2013. Se Snowden revelou pela primeira vez segredos coletados pela NSA utilizando-se de ferramentas digitais, o que o WikiLeaks revela é de outra natureza. Ele mostra quais são as ferramentas no arsenal da mais conhecida agência de espionagem americana. E, de quebra, deixa claro o nível da fragilidade de segurança de nossos aparelhos cotidianos. Até a TV, coitada, serve como potencial grampo para escutas.

O informante da organização de Julian Assange repassou dois tipos de dados. Por um lado, o conjunto de programas e vírus utilizados pela Agência Central de Inteligência. Por outro, um pacote de 8.761 arquivos que descrevem este arsenal. O WikiLeaks, embora insinue ter os programas, não os tornou públicos. E afirma que não tem planos de fazê-lo por enquanto. Nas mãos de hackers criminosos, seriam um risco imenso.

A CIA não nega que material vazado seja real e o FBI já iniciou uma investigação que incluirá algumas centenas de entrevistas, talvez até mais de mil. São os funcionários da agência e terceirizados que tinham acesso ao que vazou. Um destes é o responsável.

Não se trata, segundo os especialistas, de todas as ferramentas para burlar segurança digital que a CIA tem. O WikiLeaks, aliás, afirma que seu material é maior e divulgará outros documentos adiante. Ainda assim, impressiona pela variedade e pela constatação inevitável de que nada digital é realmente seguro. Tudo é violável.

Tanto os iPhones que rodam iOS quanto os celulares que funcionam com Android são facilmente quebráveis. É burlando sua segurança que os agentes têm acesso a conversas por sistemas de mensagem como WhatsApp. As conversas são de fato encriptadas e protegidas antes de sair do celular – mas a CIA já está no aparelho, não precisa driblar a poderosa encriptação para conhecer o teor de tudo o que se diz. O mesmo vale para computadores – quaisquer computadores, não importa que sistema usem.

Não há mais segredos. E certamente não é apenas a espionagem americana que tem acesso a ferramentas sofisticadas deste tipo. Britânicos, alemães, israelenses, russos e chineses, no mínimo, têm coisas equivalentes. Assim como grupos de bandidos talentosos que passeiam pelo submundo cibernético. Mas não é só para nós que não há mais segredos. Afinal, as agências de espionagem americanas tampouco conseguem manter os seus intactos.

No mundo digital, vazamentos continuarão a ocorrer. A regra número um: antes de enviar qualquer texto ou imagem que pode prejudicá-lo se tornado público, pense duas vezes. E, depois, uma terceira. A CIA pode não estar muito interessada. Mas ela não consegue manter suas ferramentas protegidas por muito tempo.

Não é só sua incapacidade de manter segredos que gerou desgaste para a CIA. A relação com o Vale do Silício, que já não era das melhores, afundou por conta deste vazamento. Empresas como Apple e Google não gostam do fato de que seus aparelhos são consistentemente burlados. Mas compreendem, também, que num Estado de leis às vezes um juiz dará ordens para que um celular seja quebrado ou que violar o sigilo de certas conversas pode salvar vidas. É um equilíbrio delicadíssimo. Afinal, ao quebrar para um, existe o perigo de ensinar para os espiões como quebrar para todos.

Havia um acordo de cavalheiros não escrito. As agências deveriam informar para as empresas quando descobrissem vulnerabilidades graves. Diziam informar. Agora, ficou claro, não o faziam. Quem já está em contato com algumas das principais companhias americanas para ajudá-las, ironicamente, é Julian Assange. Um dos principais inimigos públicos dos EUA.

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