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A Itália contra a zona do euro

Com o tempo, nos acostumamos com essas irrupções de febre. Nós deixamos a tempestade passar. Mas hoje, novo alerta vem da Itália e Bruxelas o leva a sério

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 19h34

A Europa treme. Está acostumada com isso. Está sempre entre “angústia e tremor”, já que os “eurocéticos” contaminaram tão fortemente vários países do Velho Continente. Então, os senhores de Bruxelas entram em pânico sempre que uma eleição na Alemanha possa vir a enfraquecer o “bom soldado europeu” que é Merkel, mas também quando um dos países do grupo Visegrado (Hungria, República Tcheca, Polônia e Eslováquia) está zangado com a UE.

Com o tempo, nos acostumamos com essas irrupções de febre. Nós deixamos a tempestade passar. Mas hoje, novo alerta vem da Itália e Bruxelas o leva a sério.

Qual é a culpa da Itália? Apresentou aos Comissários de Bruxelas o seu projeto de orçamento para o ano 2019, servidão decretada no momento em que a crise financeira da Grécia estava prestes a demolir toda a Europa. Infelizmente, o orçamento apresentado pelos italianos foi considerado deplorável pelos comissários de Bruxelas, mal elaborado, incoerente e, especialmente, prevendo um déficit igual a 2,4% do PIB, embora a Itália tivesse prometido em junho um déficit não superior a 0,8% do PIB, a única maneira de reduzir (ligeiramente) a monumental dívida italiana (essa dívida atinge atualmente o número assustador de 132% do produto interno bruto (PIB).

A preocupação de Bruxelas é tanto mais aguda uma vez que a Itália recentemente adotou um governo heterogêneo composto de duas forças (os neofascistas da Liga do Norte e os populistas e demagogos do M5S – Movimento 5 Estrelas). O tom foi dado imediatamente, assim que a Comissão de Bruxelas fez questão de relembrar a ortodoxia orçamentária aos italianos. Nós tivemos um show: lirismo, imprecações e cólera, disciplinas nas quais os italianos são grandes profissionais e têm muitos séculos de tradição.

Primeira façanha: depois que a UE exigiu as mudanças nesse orçamento, um deputado de extrema-direita italiana saltou sobre a plataforma, tirou o sapato e examinou os documentos antes de Moscovici, o comissário europeu de finanças. Ele vituperou: “Acabo de atropelar a montanha de mentiras que Moscovici escreveu contra a Itália. Esses euro-imbecis devem entender isso. Nós não vamos abaixar nossas cabeças. Um pouco mais tarde, soubemos da reação do líder M5S, Luigi di Maio: “Não vamos mudar uma palavra desse “orçamento do povo”. E o chefe da Liga, o célebre e poderoso Matteo Salvini (Ministro do Interior) confirma: “Ninguém vai tirar um euro deste orçamento... A União Europeia não ataca um governo, mas sim um povo”.

Situação de impasse. O que fazer? Para Bruxelas, a autoridade da Comissão, da Europa, e a coesão desta Europa, já dividida entre os pró-euro-europeus (Macron, Merkel) e os “eurocéticos” estão seriamente em perigo. No fundo, um fantasma ressoa: o da Grécia que, há dez anos, quase acabou com a União Europeia, por causa de suas dívidas. Mas a Itália é um tanto quanto diferente da Grécia. É a terceira maior economia da Europa. Sua falência pode ser a de toda a União Europeia.

Em frente, a União Europeia. Ela sabe que os julgamentos sobre os diferentes orçamentos da zona não são vinculativos. Eles podem até ser ignorados, o que até agora nunca aconteceu. Será que a Itália vai inaugurar tal prática? A UE enfrenta um calvário. Foi fundada sobre convicções democráticas e respeito mútuo: poderá hoje negligenciar tradições? Isso seria perigoso.

Em sete meses, os europeus serão chamados às urnas para eleger os deputados europeus. A provação nestes tempos de confusão seria perigosa para Bruxelas. A guerra com a Itália poderia encorajar os votos eurocéticos por toda a Europa e a favor de uma extrema direita tumultuosa, o que levaria, na melhor das hipóteses, a uma paralisia da “Europa” e, na pior das hipóteses...

Estas são as virtudes e os defeitos de cada uma das duas soluções: a Comissão de Bruxelas terá que escolher: ou se prostrar diante dos italianos e perder toda a autoridade. Se ao contrário, aceitar o desafio, vai se envolver em um “braço de ferro” com Roma, com uma desordem infinita em todo o continente. Além disso, nesse confronto, nada diz que a Itália perderia porque o novo governo de Roma (antieuropeu, antimigrantes, antiausteridade) é extremamente popular na Itália.

Não há dúvida de que, nos próximos dias, haverá reuniões e agitação nos corredores habitualmente tão calmos, tão sonolentos da Comissão de Bruxelas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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