A lacuna de Obama

"Não acredito que já seja tarde demais para mudar de rumo, mas, se não tomarmos medidas drásticas o quanto antes, isso não será mais possível. Se nada for feito, esta recessão pode durar anos." Foi o que declarou o presidente eleito Barack Obama, na quinta-feira, explicando por que os Estados Unidos necessitam de uma resposta agressiva do governo contra o declínio econômico. Ele tem razão. Esta é a mais perigosa crise desde a Grande Depressão, e poderia facilmente se transformar num declínio prolongado. Mas a receita de Obama não corresponde ao diagnóstico. O plano que ele está oferecendo não é tão forte quanto a linguagem empregada para descrever a ameaça econômica. Na verdade, fica muito aquém. Levemos em consideração o tamanho da economia americana. Se houver demanda suficiente para sua capacidade produtiva, os Estados Unidos são capazes de produzir mais de US$ 30 trilhões em mercadorias e serviços nos próximos dois anos. Mas com o gasto do consumidor e o investimento das empresas em queda, abre-se uma lacuna entre aquilo que a economia americana é capaz de produzir e o que é capaz de vender. E o plano está longe de preencher essa "lacuna produtiva". Ainda esta semana, o Gabinete Orçamentário do Congresso publicou sua mais recente análise do panorama econômico e orçamentário. O gabinete afirma que, na ausência de um plano de estímulo, o desemprego superaria os 9% no início de 2010, e permaneceria alto durante anos. Apesar de sombria, a projeção pode ser otimista, se comparada a algumas previsões independentes. O próprio Obama tem dito que, sem um plano de estímulo, a taxa de desemprego poderia chegar aos dois dígitos. Entretanto, até o GOC diz que "a produção econômica estará, pelos próximos dois anos, em média 6,8% abaixo do seu potencial". Isso corresponde a uma perda de US$ 2,1 trilhões na produção. "Nossa economia poderia ficar US$ 1 trilhão abaixo da sua capacidade total", declarou Obama. Na verdade, ele estava atenuando a situação. Para preencher uma lacuna de mais de US$ 2 trilhões - possivelmente muito mais, se as projeções do gabinete orçamentário se mostrarem excessivamente otimistas -, Obama oferece um plano de US$ 775 bilhões. E isso não é o suficiente. Às vezes o estímulo fiscal pode ter um efeito "multiplicador": além dos efeitos diretos de, por exemplo, um investimento na infraestrutura em demanda, pode haver um efeito indireto adicional conforme rendas maiores levarem a um maior gasto dos consumidores. Estimativas sugerem que cada dólar em gasto público aumenta o PIB em cerca de US$ 1,5. Mas apenas cerca de 60% do plano é composto de gastos públicos. O restante são cortes de impostos - e muitos economistas estão céticos quanto seu impacto. O fato é que o plano não deve preencher mais do que metade da lacuna produtiva, e poderia fazer menos de um terço do necessário. Por que Obama não está tentando fazer mais? Será que o plano é limitado por medo do endividamento? Há perigos associados com a contração de empréstimos do governo em larga escala - o relatório do GOC publicado esta semana projetou déficit de US$ 1,2 trilhão para este ano. Mas pode ser ainda mais perigoso ficar aquém do esforço necessário para salvar a economia. O presidente eleito falou com precisão sobre as consequências da inação - existe um risco real de que escorreguemos para uma prolongada armadilha deflacionária -, mas as consequências da incapacidade de agir não são muito melhores. Será que o plano é limitado por falta de oportunidades para gastar? Há apenas um pequeno número de projetos de investimento público prontos para a implementação. Mas há outras formas de gasto público que poderiam ser benéficas. Ou será que o plano é limitado pela cautela política? Reportagens indicavam que os assessores de Obama estavam preocupados em manter o custo do plano abaixo da marca politicamente sensível de US$ 1 trilhão. Também foi sugerido que incluir grandes cortes de impostos para as empresas, que aumentam seu custo mas pouco ajudam a economia, seria uma tentativa de obter votos republicanos no Congresso. Seja qual for a explicação, o plano não parece adequado às necessidades. É verdade que um terço é melhor do que nada. Mas, no momento, enfrentamos duas grandes lacunas econômicas: a lacuna entre o potencial da economia e o seu desempenho provável, e a lacuna entre a rigorosa retórica econômica de Obama e o seu plano um pouco desapontador.... *O autor é Prêmio Nobel de Economia

Paul Krugman*, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

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