A Lego quer tornar suas peças sustentáveis

Empresa dinamarquesa tenta recriar seus famosos blocos com material reciclado

Stanley Reed, The New York Times

15 Setembro 2018 | 04h00

BILLUND, DINAMARCA - No coração desta cidade há um prédio que é o verdadeiro templo da mais famosa criação da área: o humilde bloco de Lego. O prédio está repleto de criações complexas, desde uma árvore de 15 metros de altura até uma coleção de dinossauros multicoloridos, todos eles criados com um produto que quase não mudou em mais de 50 anos.

No seu laboratório de pesquisa, contudo, a Lego procura remodelar a peça que a tornou mais conhecida: a empresa quer, em 2030, ter eliminado sua dependência do plástico, que por sua vez tem por base o petróleo, e criar seus brinquedos com material reciclado à base de fibra vegetal.

O desafio é projetar blocos que se juntam, mas se separam facilmente, mantêm as cores brilhantes e consigam sobreviver se acabarem numa máquina de lavar roupa ou forem pisados por alguém. Basicamente, a companhia pretende mudar os ingredientes, mas manter o produto exatamente o mesmo.

“Temos de aprender de novo como fazer isto”, disse Henrik Ostergaard Nielsen, supervisor de produção da fábrica da Lego em Billund. No mundo inteiro os consumidores se mostram cada vez mais alarmados com o impacto do lixo plástico sobre o meio ambiente e um número cada vez maior de empresas vem tentando usar material de embalagem reciclado ou menos poluente.

Mas o problema da Lego é mais complicado, já que os plásticos não são a embalagem, mas o produto. A fábrica totalmente automatizada da empresa em Billund é a imagem do mecanismo de um relógio. Na sua enorme instalação que ocupa um espaço de mais de 450 metros, as máquinas organizadas em fileiras fundem grânulos de plástico e os transformam numa pasta derretida que vai se tornar o molde. Segundos depois um lote de blocos coloridos aparece e é depositado em carrinhos autônomos, que os levam para um armazém para distribuição. Diariamente são produzidos 100 milhões de peças.

O nome da companhia – Lego – é uma contração de duas palavras dinamarquesas que significam “brinque bem” e suas raízes remontam ao início dos anos 1930 quando um carpinteiro chamado Ole Kirk Kristiansen começou a fabricar e vender carrinhos de bombeiros e outros brinquedos de madeira.

Na década de 1950, ele começou a fazer experiências com blocos de plástico. Seu filho Godfred passou a comercializar os pequenos blocos não somente como brinquedos, mas como um sistema de construção que podia ser expandido e passado para as novas gerações. Os blocos criados em 1958 ainda são compatíveis com as ofertas atuais.

Hoje a companhia vende seus produtos no mundo inteiro e firmou parcerias com franquias de filmes como Batman e Star Wars para comercializar não só os kits de tijolinhos, mas filmes e videogames com bonecos Lego. Parcerias que propiciaram à companhia um lucro de US$ 1,2 bilhão no ano passado, superando rivais como as americanas Mattel e Hasbro.

A família Kirk Kristiansen, que ainda está no controle da companhia, recebeu um dividendo de US$ 1,1 bilhão. Mas hoje um número cada vez maior de crianças utiliza aparelhos móveis para se entreterem, de modo que a Lego briga agora não só com as fabricantes de brinquedos, mas também com as empresas de tecnologia e jogos, como Activision Blizzard, Microsoft e Sony.

A empresa vem sentindo a pressão e no ano passado cortou 1,4 mil postos de trabalho devido à queda de receita e lucros, que ocorreu pela primeira vez em uma década.

Carbono. Mas a Lego emite também um volume substancial de carbono. Cerca de um milhão de toneladas de dióxido de carbono é emitido por ano, três quartos dos quais vêm da matéria prima que entra nas suas fábricas, disse Tim Brooks, vice-presidente da área de responsabilidade ambiental da companhia. A empresa está adotando uma dupla estratégia para reduzir esse volume.

De um lado, até 2025, pretende manter toda a sua embalagem longe dos lixões eliminando coisas como sacolas de plástico dentro das embalagens de papelão. E seu objetivo também é que o plástico dos brinquedos tenha como fontes fibras vegetais ou garrafas recicladas.

O problema neste caso é que basicamente todo o plástico utilizado no mundo é criado a partir do petróleo. Hoje a Lego usa uma substância conhecida como ABS (Acrilonitrila butadieno estireno), um plástico comum usado para teclas de computador e capas de celulares. É duro, mas ligeiramente elástico e também tem uma superfície polida.

Para se livrar de produtos como o ABS, a Lego iniciou uma busca exaustiva por materiais novos e sustentáveis. Está investindo 1 milhão de coroas dinamarquesas (cerca de US$ 640 mil) e contratou cem pessoas para trabalhar nessas mudanças. Os técnicos testam metodicamente materiais para ver se eles conseguem suportar uma pancada forte ou sobreviver quando puxados com muita força. Fizeram testes para verificar se suportam o calor de um verão na Arábia Saudita e se mantêm a paleta de cores brilhantes que tornaram as peças dos brinquedos Lego famosas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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