A liderança dos serviços

Em tempos de discussão sobre se o País está ou não se desindustrializando, é bom lembrar que a parte que se tornou mais dinâmica na economia brasileira nos últimos anos foi a de serviços. Essa tendência é natural no processo de desenvolvimento de cada país e é o que se vê na maior parte dos países desenvolvidos, onde o setor tem, de longe, a maior parcela da economia e dita a maior parte das inovações. Basta lembrar que as empresas mais dinâmicas nos EUA têm sido as da área de tecnologia, como o Google.

Análise: Sergio Vale, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

No Brasil, esse processo começou na década de 90, quando serviços importantes foram repassados para o setor privado, como as telecomunicações; outros, como a intermediação financeira, foram reestruturados; e outros ainda como os serviços imobiliários, que passaram a conviver com mudanças institucionais importantes, como a alienação fiduciária, e a queda da taxa de juros. Muitos ganhos de produtividade nesta década foram originados nesses setores, num momento em que a indústria tem dificuldade de achar um caminho de crescimento. A indústria sofre mais do que os serviços com as falhas logísticas, além de enfrentar competidores muito fortes como a China. Por ser um setor essencialmente voltado para o mercado doméstico, os serviços conseguem avançar se existem as condições mínimas de crescimento. Não à toa, alguns serviços, como telecomunicações e financeiros, lideraram o crescimento nos últimos anos e sofreram menos que outros na crise de 2008/2009. Esses setores básicos devem continuar em forte expansão, passando agora por um momento de consolidação, como se vê na necessidade de convergência tecnológica em comunicações.

Sendo isso verdade, a questão é saber se as condições básicas de crescimento estarão postas nos próximos anos. Nossa hipótese é que essas condições estarão presentes e há novas oportunidades surgindo de desenvolvimento, tanto regionais quanto setoriais. Primeiro, a região Sudeste deve voltar a ser líder de crescimento porque o dinamismo que se criou na economia terá que ser menos dependente de transferência de renda e mais focado em investimento em infraestrutura, por uma necessidade de alocação de recursos escassos. Como o Sudeste concentra o maior polo de serviços e de indústrias e é onde estará concentrado o grosso de investimentos para os jogos de 2014 e 2016, isso sem falar do pré-sal, é natural ver a região como forte atrativo de investimentos. É onde também se concentra o melhor nível educacional e a melhor infraestrutura.

Mas além da questão regional, há as oportunidades de setores que estão se tornando mais dinâmicos, como o de saúde. Assim como os imóveis se tornaram o grande desejo do consumidor, isso deverá acontecer também numa área em que o setor público opera mal. O atendimento hospitalar privado deve crescer muito e deve incorporar o turismo de saúde, que começa a crescer no País para além das cirurgias plásticas.

Outro polo importante é a economia criativa. Somos infantes nessa área, mas o potencial em São Paulo e Rio é grande pelo expertise que tem sido criado com produtoras de cinema ou com o apelo da moda brasileira no exterior. Se sair o Vale Cultura que o governo tenta implementar será um impulsionador ainda maior.

Mas nem tudo são flores. Um setor importante como transportes ainda sofre com dificuldades regulatórias, como as ferrovias, ou com uma grande disparidade de modelos de concessão, no caso das rodovias - o que pode não levar a um aumento de produtividade. É um setor cuja falta de dinamismo dificulta o maior crescimento da indústria, mas que, diga-se de passagem, não está passando por desindustrialização, o que o clichê nos obriga a dizer que se trata de outra história.

É ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.