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A língua absolvida

O Brasil de meu pai era outro. Melhor ter partido com a imagem do país que o acolheu

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 04h00

Meu pai morreu há dez anos. Penso muito nele. Se chamava Iosif, mas era conhecido pelo sobrenome: Landau. Trocávamos sugestões de livros e filmes. Até hoje, quando assisto uma série legal, penso em ligar para ele. Se foi antes do Zap, nossas conversas eram ao vivo. A voz indicava seu humor, volátil.

Judeu, nascido nos anos 20 em Bucareste, chegou no Rio em 1940, com os pais e a irmã, fugindo do nazismo. Meu nome é uma homenagem a minha avó. Desde que pisou aqui, virou brasileiro de coração. Me apresentou João Gilberto, Doralice é minha primeira lembrança. 

Cidadão Carioca Honorário, remador do Botafogo, ele amava a praia. Se apaixonou por minha mãe, católica fervorosa. Os filhos foram batizados, mas nenhum seguiu religião alguma. Estudamos em colégios católicos, pela qualidade, e só. Para desgosto do meu avô nem Bar Mitzvah fez. Quando faleceu, sob protestos de um primo judeu ortodoxo, seguimos seu desejo de ser cremado. Suas cinzas foram jogadas ao mar da pedra do Arpoador.

Um dia dei a ele Eichmann em Jerusalém. O livro mexeu muito com sua história de refugiado do nazismo. E sem nunca ter sido religioso, passou a defender fervorosamente o Estado de Israel.

Desde que pisou no Rio, deixou a Romênia para trás. Só falava português, e perfeitamente, mesmo com meus avós. Nas Copas, torcia pelo Brasil. Dizia que pela Romênia só quando fosse contra a Argentina. Mais brasileiro impossível.

Só muito mais tarde entendi a razão da negação de sua origem. Fui morar na Inglaterra e na época a Romênia estava entrando na União Europeia. Para facilitar a entrada na imigração em Londres, resolvi recuperar a cidadania romena. Era necessário que meu pai entrasse com pedido também. Convencê-lo foi uma luta. Ele me disse: “Não quero ser romeno. Não tenho orgulho daquele país. Sempre foram antissemitas, aderiram ao nazismo, Ceaucescu foi um ditador comunista corrupto, sua mulher chefiou a polícia mais sangrenta do Leste Europeu, e depois da queda do muro caiu nas mãos de quadrilhas capitalistas tão bandidas quanto a comunista”. 

Eu nunca tinha percebido essa mágoa toda. Achava que a imediata e total adesão à nacionalidade brasileira era uma forma de adaptação, defesa de um expatriado. 

Insisti. Fiz tremenda chantagem emocional, disse que ele deveria fazer por mim e pelo neto. Cedeu. Começava um processo longo e burocrático. 

As regras da UE mudavam com frequência e com elas os documentos exigidos. Resolvi ir a Bucareste. Iosif se recusou a me acompanhar, é claro. Fui fazer o que nenhum Landau tinha feito. Voltar. Rever a casa onde moraram. O colégio onde estudou. E comer a comida típica, com suas dicas no bolso. Foi muito especial. Eu e meu pai nunca estivemos tão próximos. Mandava mensagens e fotos. Nesses dias, ele parecia ter deixado as mágoas de lado. Fui também para acelerar as coisas. Levei a certidão de nascimento original dele. Papel quase transparente com marcas de fita durex, um documento histórico. Não funcionou. 

Durante a ditadura muitos registros foram queimados. O governo que se seguiu tornou obrigatória a obtenção de nova certidão em cartório. Fui a um deles. Em um processo kafkiano, dei com a cara na porta. A lei dizia que uma nova certidão era necessária, e para obter a cópia do cartório, sem a presença dele, deveria levar uma procuração. Eu mostrei o documento original de 1924, tão relevante quanto a procuração, mas como a lei não pensou nessa hipótese, voltei ao Brasil com as mãos abanando.

Resolvi ir ao consulado no Rio. A minha primeira tentativa não tinha sido bem-sucedida. O cônsul de então insistia, ao telefone, em dizer que meu pai havia aberto mão da cidadania ao fugir. E não tinha direito a recuperá-la. Pois é, parecia que o antissemitismo ainda estava enraizado. Nem falei para papai isso. Mas uma nova consulesa bem mais acessível havia chegado. A muito custo, consegui convencê-lo a me acompanhar. Seu mau humor era evidente.

Sentou-se com ar aborrecido em uma poltrona de couro. Nas paredes imagens de reis, príncipes e heróis romenos. Ele foi relaxando e me contando a riquíssima história dos Bálcãs, a perda e a anexação de territórios. Algo foi nascendo ali. 

Depois de muito tempo, fomos interrompidos pela consulesa que nos pediu para preencher um questionário. Escrito em romeno é claro. Meu pai empurra o papel e diz que não consegue entender o que estava escrito, afinal havia sete décadas que não falava nem lia nada na língua materna. 

A consulesa era mulher doce e insistiu. Ignorando minha presença, começou a falar em romeno com papai. Ele resistiu, mas foi aos poucos recuperando o vocabulário. Chorou. Terminamos os três aos prantos. Consegui a cidadania, dele e minha, muitos anos depois. Mas ele morreu no caminho. 

Esse texto é uma homenagem a meu pai. Pela primeira vez nestes últimos dez anos, fico feliz de ele não estar mais por aqui. Melhor ter partido com a imagem do país que o acolheu. Não merecia mesmo ver os símbolos nazistas utilizados banalmente por um governo de ultradireita, nem a bandeira de Israel vulgarizada. O Brasil dele era um outro Brasil.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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