A lógica circular da crise econômica

Depois da 2ª Guerra Mundial, o Brasil vivenciou dois ciclos de expansão econômica: o primeiro, nos anos JK, e o segundo, durante o período do "milagre econômico" no regime militar. Um ciclo de expansão se caracteriza por um longo período (de cinco a dez anos) de crescimento econômico acelerado à China, tanto global quanto setorial. É precedido normalmente de reformas econômicas e institucionais de natureza reestruturante, que contribuem para a eliminação de pontos de estrangulamento e de outros óbices à mobilização das potencialidades latentes de desenvolvimento. Num ciclo de expansão, o ambiente psicossocial da população é de confiança no progresso da nação e de euforia com o crescimento continuado da renda e da riqueza. Desde então, a experiência brasileira de crescimento econômico tem sido de stop and go.Nos últimos três anos, surgiram indicadores de desempenho da economia brasileira que sinalizaram a emergência do terceiro ciclo de expansão do pós-guerra. O sinal mais sensível pode ser atribuído aos grandes projetos de investimento (de US$ 500 milhões a US$ 2 bilhões) que estavam decididos para ser implantados no País ao longo do próximo lustro. Somente no setor de mineração, esses investimentos somavam em torno de US$ 60 bilhões. Acrescente-se a esse valor o conjunto de quase uma centena de investimentos em outros setores (petróleo, papel e celulose, siderurgia, agronegócios, bioenergia, automobilístico, etc.) e estaria garantida a trajetória de crescimento sustentado do PIB superior a 7% ao ano, a partir de 2009.Mas tudo isso está se esvaindo desde que se caracterizou a crise econômica mundial a partir do segundo semestre do ano passado. Muitos dos grandes projetos de investimento foram cancelados ou postergados; a demanda agregada está-se retraindo diante da restrição creditícia generalizada; as taxas de desemprego se agigantam; e o ambiente psicossocial da população é de incerteza e de desconfiança em relação ao futuro.Em 1939, o professor Paul Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1970, analisou as interações circulares, no lado real da economia, entre os efeitos combinados do multiplicador keynesiano e o princípio da aceleração econômica. Esses efeitos são interdependentes tanto nas flutuações cíclicas de prosperidade econômica quanto nas de recessão. A ideia é simples: os investimentos em bens de capital dependem, entre outros fatores, das mudanças sustentadas no nível da demanda agregada. Máquinas, equipamentos e galpões industriais são duráveis, e seria possível manter o nível do PIB sem novos investimentos, se a capacidade produtiva estiver adequada. Contudo, se a demanda se retrai, o sistema passa a operar com capacidade ociosa, dispensando a necessidade de novos investimentos, que entram em colapso.O princípio da aceleração estabelece um elo causal entre as variações na demanda agregada e o nível de investimento. Por outro lado, a redução de investimentos tem um efeito multiplicador negativo sobre o emprego e a renda da economia por meio da demanda induzida dos consumidores. Se as exportações brasileiras se desaceleram, projetos de investimento são cancelados ou postergados, reduzem-se as encomendas para as indústrias de construção civil e de bens de capital, que desempregam mão-de-obra de todos os níveis de qualificação. Caindo a renda e o emprego, reduz-se a demanda de bens de consumo, cuja indústria irá jogar para a frente os seus planos de expansão.Dessa forma, vai-se configurando o circuito completo de uma recessão econômica, que fica melhor caracterizado quando nessas interações se coloca o papel das expectativas em torno de uma economia mundial que oscila entre uma recessão de grande profundidade e uma depressão.É bastante provável que se venha a assistir, ao longo dos próximos meses, ao aprofundamento dessas interações circulares para baixo entre o multiplicador e o acelerador na economia brasileira. Pois, por enquanto, as medidas fiscais e financeiras tomadas pelo governo federal são de intensidade limitada em seu escopo, difusas em seus impactos no tempo e sem capacidade de reverter as expectativas adversas sobre a evolução do ciclo recessivo que vai se delineando de forma cadenciada, mas irreversível. *Paulo R. Haddad, professor do IBMEC/MG, foi ministro do Planejamento e da Fazenda no governo Itamar FrancoExcepcionalmente, Rolf Kuntz não escreve hoje.

Paulo R. Haddad*, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

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