A marca de uma nação

O lançamento oficial da identidade visual da Copa do Mundo que se realizará no Brasil, em 2014, com a apresentação mundial da marca escolhida por um júri de notáveis e desenhada por uma agência de propaganda, me faz falar.

Ronald Kapaz, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

O Brasil se encontra em um turning point, tendo diante de si a tão esperada oportunidade de deixar de ser um país do futuro para ser um país do presente. No centro desta oportunidade estão dois grandes eventos internacionais, sendo a Copa o mais próximo e mais envolvente dos dois. A natural identidade entre o futebol e nosso país já é em si uma grande oportunidade e uma grande responsabilidade quando se trata de um projeto de identidade de nação.

E então somos todos surpreendidos por um primeiro passo desse projeto: o lançamento da marca da Copa do Mundo do Brasil de 2014. Por "todos" me refiro à categoria de profissionais que se dedicam a pensar e desenhar identidades de marca. O que pude ver é que não houve uma única interpretação positiva da marca escolhida, e isso também me faz falar.

Divido aqui a questão em três tópicos. O primeiro é relativo ao processo. Design não é concurso de desenho ou concurso de beleza e toda marca nasce de um briefing, de um conteúdo previamente elaborado, que deve ser a matriz de referência que se usará para avaliar a qualidade do resultado final. Não se trata, portanto, de um julgamento estético de "gosto". Se bem conduzido, o desenho de uma marca deve estar ancorado numa equação onde o conteúdo pode ser tecnicamente e objetivamente traduzido numa forma, que possa ser julgada por sua solução estética e estratégica em relação a este conteúdo.

De que face do Brasil, do futebol ou de nossa identidade estamos falando com a marca em questão? Tudo faz crer que tratou-se de um "concurso de beleza", diante do júri convidado a avaliar os resultados, e diante da nossa dificuldade, como profissionais, em reconhecer alguma qualidade que possa ser destacada como o fruto de qualquer imagem de Brasil (um país que tem como característica identitária a hospitalidade, traduzida por um Cristo Redentor de braços abertos para o mundo, e que escolhe uma marca fechada, sufocante, para expressar-se), do futebol (foot, não hand), ou do evento (internacional, colorido, e não verde/amarelo).

Por que uma marca fechada para um país aberto? Por que a sensação de confinamento provocada pela forma das mãos, em vez de uma sensação de celebração, alegria e festa que são naturais do evento e do Brasil? Por que exaltar a forma do troféu, criando um dorso inesperado e uma figura misteriosamente triste? Por que vejo "basquete", quando deveria ver "futebol"? Por que "torção", quando poderia ser "torcida"? Por que um desenho tão inseguro e impreciso, quando poderia ser a imagem de um Brasil maduro e moderno?

O segundo tópico é o resultado: todos nós pudemos ver que só houve críticas à marca escolhida, e temos de ter ou desenvolver ferramentas para instrumentar essa avaliação. Fico me perguntando por que sabemos a diferença entre um Romero Brito e um Roy Lichtenstein, entre Dostoievski e Paulo Coelho, e achamos que no tema do design não temos como julgar, ou tememos nos autointitular responsáveis pela definição do que é "bom design", que é bem diferente de dizer o que é "belo". Nosso trabalho não é feito e não deve ser portanto julgado como uma "simples" questão de gosto, que autorize qualquer júri eminentemente "popular" a ser a régua de valor que possa medir resultados.

A terceira questão é justamente o júri: pelas razões acima descritas, creio que um júri majoritariamente técnico é o modelo que garante a melhor avaliação do resultado de todo projeto de design. Neste caso, o que vimos foi um projeto técnico de alta responsabilidade sendo avaliado por um "comitê de notáveis": Ivete Sangalo, Gisele Bündchen, Paulo Coelho, Hans Donner e Oscar Niemeyer, além do presidente da CBF e do Comitê Organizador Local da Copa (COL), Ricardo Teixeira, e do secretário da Fifa, Jérome Valcke.

Por último, olho para essa marca e curiosamente vejo que ela é a cara (negativa) do Brasil, da CBF e quem sabe da FIFA, que não conhecemos tanto: mãos misteriosas, anônimas, tentam apropriar-se de um bem que é de todos, para seu próprio benefício e glória. Um belo autorretrato dos envolvidos. Um pobre retrato do Brasil.

SÓCIO-TITULAR, HEAD DESIGNER E DIRETOR DE ESTRATÉGIA DA OZ DESIGN

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