À margem da riqueza do Vale do Silício

Empresas como Apple, Google e Facebook convivem com pobreza e violência na região

JON SWARTZ, USA TODAY/O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2014 | 02h03

EAST PALO ALTO - A poucos quilômetros da sede do Facebook, agentes policiais algemam um suspeito num bairro miserável. Quem dirigir alguns minutos pela Bay Road, notará a disparidade entre os que têm e os que não têm. Grades protegem janelas. Carros de patrulha cruzam as ruas perto da Cesar Chávez Academy, onde escolares folgam. Moradores de rua circulam pelo local.

Eles compartilham o mesmo código postal com o Facebook, mas vivem em mundos separados. Por todo o Vale do Silício, cercas e ruas separam os ricos dos pobres. Por um subterfúgio jurisdicional, trechos da elegante Atherton ficam adjacentes a áreas infestadas pelo crime em Redwood City. Uma cerca separa casas milionárias da igreja de St. Anthony, onde moradores de rua recebem refeições quentes, de graça, seis dias por semana, num salão de refeições.

"Dá para jogar uma pedra até lá", diz o ativista Larry Purcell, apontando casas de US$ 5 milhões à distância de um grito da igreja. "Os ricos não conseguem compreender os pobres e, às vezes, eles vivem próximos uns dos outros."

A pobreza abjeta forma bolsões no Vale do Silício, onde o crescimento de emprego e renda atinge valores recordes. Os negócios podem estar bombando no Google, em Mountain View; no Facebook. em Menlo Park; e na Apple, em Cupertino, mas para os que estão do lado de fora a vida é dura.

A casa média na área da Baía de São Francisco é vendida por US$ 1 milhão, e a maioria dos apartamentos é alugada por mais de US$ 2,5 mil mensais.

Em São Francisco, os famintos formam filas em albergues por comida no bairro de South of Market. Cidades de tendas brotam em San Jose e outros lugares. Na Jungle em San Jose, que deve ser o maior acampamento de sem-teto do país, até 350 pessoas vivem em tendas, barracos e casas de árvore.

No vizinho Condado de San Mateo, o terceiro mais rico do Estado, os moradores de rua alugam camas por seis a oito horas - ou vivem em carros. "Sempre houve uma diferença de riqueza extrema entre os afluentes e outros aqui, mas ela ficou mais pronunciada depois do boom de tecnologia", diz Marianne Cooper, uma socióloga da Universidade Stanford e autora do novo livro Cut Adrift: Families In Insecure Times (À deriva: famílias em tempos inseguros, em tradução livre; sem edição em português). O livro examina o abismo entre os ricos do ramo de tecnologia e quase todos os demais no Vale do Silício.

Caso extremo. A disparidade de renda é a norma em centros tecnológicos caros como Nova York, Seattle e Boston, onde trabalhadores altamente especializados desfrutam das mordomias dessas cidades, diz a economista Rebecca Diamond da Universidade Stanford, que estudou a desigualdade econômica em cidades com grandes quantidades de trabalhadores com formação acadêmica altamente remunerados.

São Francisco é o caso extremo. Os empregos em tecnologia cresceram 56% nos últimos cinco anos - mais do que em qualquer outra cidade grande do país - e a taxa de desemprego caiu para 4,4%. Os preços da moradia estão subindo 20% ao ano, e o aluguel médio em 2013 foi de US$ 3.396 mensais, o mais alto de qualquer cidade do país, segundo um estudo do Boston Consulting Group.

Muitos se mudaram para áreas com preços mais acessíveis, mas ficam sujeitos a longos períodos no transporte. "Praticamente, a única vez em que os ricos e os pobres se conectam é quando os pobres trabalham para eles", diz Cooper.

Negros e hispânicos, que trabalham em companhias como Google e Facebook, mas são terceirizados, recebem salários tipicamente baixos e poucos - quando recebem - benefícios. Os mais proeminentes entre os que batalham para ganhar a vida são os motoristas de ônibus que transportam milhares de empregados a seus empregos e moradias no Vale do Silício.

Dois bairros, perto de centros de tecnologia, ressaltam a distância crescente entre os ricos e os necessitados: East Palo Alto e Redwood City.

Em 1992, East Palo Alto recebeu o título de "capital do assassinato" dos EUA. Duas décadas depois, a cidade ainda batalha para se livrar dessa reputação. O número de assaltos à mão armada saltou de 129 em 2011 para 230 em 2012, e permaneceu alto no ano passado. A elevada taxa de criminalidade reflete um desespero geral entre os economicamente privados de direitos civis, segundo líderes.

"O maior problema neste país não é o Ebola ou o Isil - é a desigualdade de renda", disse a deputada americana Jackie Speier, uma democrata cujo distrito parlamentar inclui East Palo Alto, San Mateo e Redwood City. "Isso afeta tudo." Como há uma grande receita gerada no Condado de San Mateo (onde estão instalados Facebook, NetSuite, GoPro e outros ), "não basta as companhias darem alguns dólares", diz Speier. "Elas precisam dar mais." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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