Brendan Smialowski/AFP
Brendan Smialowski/AFP

coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

À medida que os republicanos abraçam auxílio para desempregados, divisões enfraquecem sua influência

Economistas dizem que o dinheiro forneceu um amortecedor econômico crucial para os desempregados, e que a redução dos pagamentos poderia ter uma cascata de efeitos prejudiciais na economia

Emily Cochrane e Jim Tankersley, The New York Times

28 de julho de 2020 | 14h01

WASHINGTON - Os republicanos do Senado e a Casa Branca deram seu apoio, na segunda-feira, 27, a um corte substancial no auxílio-desemprego para dezenas de milhões de americanos demitidos em meio à pandemia, propondo uma redução semanal de US$ 400 a um benefício que amorteceu a economia nacional, mesmo enquanto os casos do novo coronavírus continuam aumentando em todo o país.

A proposta fazia parte de uma oferta inicial de US$ 1 trilhão que teria que ser ajustada com os democratas, que estão promovendo um pacote de recuperação que gastaria três vezes mais e estenderia os US$ 600 semanais em auxílio-desemprego extra até o final do ano.

Economistas dizem que o dinheiro, previsto para expirar nesta semana, forneceu um amortecedor econômico crucial para os desempregados, e que a redução dos pagamentos poderia ter uma cascata de efeitos prejudiciais na economia. Mas os republicanos afirmam que ele é generoso demais, desencorajando os americanos a voltar ao trabalho e dificultando a recuperação.

A decisão dos republicanos do Senado de adotar a redução reflete a situação em que se encontram durante uma pandemia agravada e uma recessão econômica contínua, pouco mais de três meses antes do dia das eleições. Com um pequeno bloco, mas vital, de senadores conservadores que se opõem a fornecer mais ajuda federal por conta do novo coronavírus, o Partido Republicano se esforçou para concordar em como estabilizar a economia devastada, deixando os democratas com vantagem crucial para um conjunto intenso de negociações a respeito do pacote de ajuda.

Enquanto os republicanos apresentavam sua proposta na noite de segunda-feira, Mark Meadows, chefe de gabinete da Casa Branca, e Steven Mnuchin, secretário do Tesouro, estavam reunidos no escritório da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, no Capitólio, reunindo-se com os principais líderes democratas em um reflexo de sua influência nas conversas.

Com os dois lados afastados, parecia improvável que eles pudessem superar suas diferenças a tempo de evitar um lapso na sexta-feira na ajuda suplementar a desempregados, nem estava garantido que eles seriam capazes de fazê-lo. Isso deixou incerto o destino da melhor esperança do presidente Donald Trump de injetar uma última dose de estímulo na economia antes das eleições gerais em novembro.

Para complicar a situação, os republicanos e a Casa Branca continuaram brigando a respeito do conteúdo do pacote, mesmo depois que ele foi anunciado, com o senador Mitch McConnell, líder da maioria, parecendo surpreso por ele incluir o financiamento para um novo prédio do FBI, que tem sido uma obsessão de Trump.

"Não acho que haja fundos, existe?" McConnell disse aos repórteres que perguntaram a respeito do dinheiro, que é designado como uma emergência relacionada ao novo coronavírus no projeto de lei. Assegurado que sim, ele disse que o governo "teria que responder à pergunta sobre por que eles insistiam nesta cláusula".

Os republicanos esperavam evitar essa situação completamente, sabendo que muitos em seus escalões haviam se exaurido com a grande quantidade de gastos federais - quase US$ 3 trilhões - que o Congresso aprovou em rápida sucessão no início da primavera. Eles resistiram à aprovação de outro pacote, apostando que, se esperassem, o vírus se dissiparia e a economia se recuperaria, e que poderiam avançar com um pacote básico.

Em vez disso, agora estão encarando o início do ano letivo com casos vertiginosos e níveis recordes de desemprego, com muitos em seus escalões não dispostos a despejar mais dinheiro na economia. A proposta deles custa mais do que muitos republicanos provavelmente apoiarão, e é provável que ainda cresça à medida que os democratas colocarem sua marca nela.

O pacote lançado na segunda-feira incluía uma nova rodada de pagamentos diretos de US$ 1,2 mil para americanos que ganhavam US$ 75 mil ou menos por ano. De acordo com as demandas de Trump, ele reservaria dezenas de bilhões de dólares em financiamento federal para escolas que reabrem para aulas presenciais.

Isso limitaria a responsabilidade legal para empresas que se abrem em meio à pandemia, uma das principais prioridades dos grupos de negócios em Washington, por episódios relacionados ao novo coronavírus que ocorrerem até outubro de 2024. 

Estabelece um crédito tributário para que as empresas reconfigurem seus locais de trabalho para promover a segurança contra o vírus e aumentaria os créditos tributários para os empregadores que contratam e retêm trabalhadores em meio ao surto. A proposta também ofereceria segurança tributária aos americanos que trabalham em um estado e vivem em outro, e estão enfrentando a perspectiva de pagar imposto de renda em mais de um estado se forem forçados a trabalhar em casa.

O pacote estenderia a ajuda do governo para pequenas empresas por meio do Programa de Proteção ao Pagamento, criado em março, e restringiria o conjunto de empresas elegíveis para recebê-la. Também criaria uma fonte alternativa de ajuda para empresas em áreas de baixa renda e alta pobreza: um empréstimo de 20 anos, com uma taxa de juros de 1%, que daria a essas empresas dinheiro suficiente para repor até dois anos de perda receitas.

Também inclui uma proposta bipartidária para forçar o Congresso a considerar futuras medidas de déficit e redução da dívida.

Meadows e Mnuchin tentaram deixar uma marca permanente no pacote em nome de Trump, passando um fim de semana na reunião do Capitólio com a equipe do Senado - um passo incomum para altos funcionários do Gabinete - para elaborar os detalhes técnicos da proposta de auxílio aos desempregados.

Enquanto os dois homens finalmente concordaram em abandonar as demandas por um corte nos impostos sobre os salários - uma prioridade presidencial rejeitada por integrantes de ambos os partidos - eles conseguiram garantir US$ 1,75 bilhão para o projeto e a construção de um novo prédio para a sede do FBI em frente ao hotel de luxo de Trump no centro de Washington, no qual ele demonstrou repetidamente interesse pessoal.

A proposta de reduzir a ajuda a desempregados em dois terços provavelmente estará entre as questões mais amargamente contestadas nas negociações que estão por vir. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.