A melhora do emprego não inspira confiança

Em março, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, foram criadas 19,3 mil vagas com carteira assinada, após quedas consecutivas desde dezembro. Se surpreenderam analistas, os números não são animadores nem configuram tendência de melhoria do mercado de trabalho.

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2015 | 02h03

Com a estagnação da economia e as medidas de ajuste fiscal em meio à inflação alta, caiu o poder de compra do consumidor e as perspectivas para o emprego são de retração. No primeiro trimestre, o pior desde 2002, houve perda líquida de 50,4 mil vagas, comparativamente a igual período de 2014.

É verdade que o número de empregos criados em março foi 47% maior que o de março de 2014 (13,1 mil). Mas março de 2014, com o carnaval, teve menos dias úteis. E em março de 2015 só foram criados empregos em serviços (53,7 mil).

As contratações concentraram-se em ensino, com o início do ano escolar, serviços médicos e transportes (segmento afetado pelas greves dos caminhoneiros, em fevereiro). Em áreas com alta rotatividade de mão de obra, números de um mês não definem tendência.

O emprego declinou fortemente na construção civil - as demissões superaram as contratações em 18,2 mil em março e o saldo trimestral foi negativo em 51 mil vagas, ante a queda de novos empreendimentos. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, José Carlos Martins, notou que as demissões na construção refletem menos confiança e investimentos.

A indústria de transformação fechou 14,6 mil vagas, contrastando com março de 2014, quando foram criadas 5,5 mil. Com a desvalorização do real, esperava-se um alento na exportação de manufaturados. O que não ocorreu: a retomada de contatos com clientes externos foi lenta e faltou competitividade. Até na agricultura houve queda de 6,2 mil vagas, pela sazonalidade ou por exportações aquém do esperado.

Com queda do PIB neste ano (-1,18%, segundo a pesquisa Focus, do Banco Central), é exagero falar em recuperação do emprego, como fez o ministro do Trabalho, Manoel Dias. Ele disse esperar uma melhora em abril, com a retomada de contratos suspensos pela Petrobrás por causa da Operação Lava Jato. Quer infundir otimismo, ignorando os baixos índices de confiança da indústria, do comércio e do consumidor. Na melhor das hipóteses, alguma melhora no ambiente de negócios evitará recuo mais profundo do emprego.

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