A metrópole dos esquecidos

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Luiz Augusto Pereira de Almeida, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2020 | 05h00

São Paulo, com seus 12 milhões de habitantes e espalhada por uma área de 1.521,00 km², é a triste síntese das questionáveis políticas adotadas para o planejamento urbano, fato que se repete em muitas cidades e que institui privilégios, promove estratificação demográfica e social, conspira contra o crescimento econômico, o desenvolvimento e o meio ambiente, levando a uma situação desordenada de uso e ocupação do solo.

A distância entre a residência de boa parte dos habitantes e seus locais de trabalho é um dos problemas que prejudicam a qualidade de vida. Muita gente consome seis horas diárias apenas no transporte.

O centro expandido, onde se localizam 70% dos empregos, tem cerca de 2 milhões de pessoas, integrantes das classes alta e média alta. Empurramos a classe média baixa e os mais pobres para cada vez mais longe. Cinco milhões de habitantes da classe média moram na periferia.

O centro expandido de São Paulo tem 250 km². É maior do que Manhattan e Paris. Mas apenas 22% dos paulistanos vivem lá, enquanto 78% estão nas periferias, onde numerosas áreas, e não apenas as favelas, não têm áreas verdes, saneamento básico, lazer e, o que é mais grave, a presença do Estado em termos de saúde, segurança e habitação.

Essa distribuição urbano-demográfica contraria a lógica da justiça social e da qualidade de vida, pois as pessoas deveriam trabalhar, estudar, ter assistência médica e lazer nas mesmas regiões onde moram.

São Paulo é uma cidade tão desigual que a taxa de mortalidade infantil em vários bairros chega a ser 20 vezes maior do que nas regiões mais desenvolvidas. Quem mora na periferia vive, em média, 23 anos a menos do que aqueles que habitam o centro expandido. Moradores de locais afastados levam cerca de 75 dias para marcar uma consulta médica na rede pública de saúde.

Também é difícil de prover saneamento básico em áreas tão espalhadas. São Paulo precisaria tornar-se mais adensada, para que pudesse ter uma infraestrutura eficiente e barata.

A Unesco (órgão da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura) define como densidade ideal a relação de 400 habitantes por hectare, que expressa o equilíbrio entre qualidade de vida e desempenho dos equipamentos urbanos. Em São Paulo, são apenas 125. Ou seja, estamos na contramão do mundo civilizado.

O uso e a ocupação desordenados do solo também levam à devastação de mananciais hídricos e da vegetação, com numerosas invasões de terrenos que deveriam ser preservados. Recentemente, essa atividade ilegal passou a ser exercida pelo crime organizado, que ocupa amplas áreas, desmata e faz loteamentos clandestinos, comprados por pessoas que nem desconfiam das irregularidades.

Por causa disso, o Município perdeu 7,2 milhões de m² de verde e 1,2 milhão de árvores. Até 2030, São Paulo terá mais 1,2 milhão de moradores. É preciso pensar em todas essas questões para reorientar os planos de expansão.

Enquanto a maioria do povo enfrenta as agruras dos desacertos históricos do planejamento urbano, o centro da cidade está cada vez mais abandonado, com comércio fechado e prédios invadidos, colocando em risco a segurança, a vida e a integridade das pessoas. É importante repovoar de modo adequado e digno essa região.

É preciso rever as políticas públicas de uso e ocupação do solo em São Paulo e nas cidades brasileiras, propiciando maior adensamento, recuperação das áreas centrais para habitação e revisão dos protocolos de verticalização das construções.

É preciso expandir o direito das pessoas de morarem onde estão o seu trabalho, sua escola, lazer e acesso aos serviços do Estado. Política habitacional não se resume a oferecer moradia barata a três horas de onde tudo acontece. É preciso prover vida de qualidade, sem segregação e com foco na mitigação das desigualdades.

DIRETOR DA SOBLOCO CONSTRUTORA, 

É MEMBRO DO CONSELHO CONSULTIVO DO SECOVI

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