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A mexicana Homex tropeça no Brasil

Referência mundial em construção popular, companhia enfrenta problemas com os primeiros clientes e não consegue avançar no País

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Perto da Estrada do Mato Dentro, na zona leste de São José dos Campos, o que se vê são casas enfileiradas, sem muro, iguais. Outro dia, parte do teto de uma delas caiu. As ruas já foram pavimentadas, mas ainda não têm nome. As cartas não chegam porque não há CEP. E telefone, só celular por enquanto. Nas calçadas, o barro é resquício da obra que está por terminar e os moradores, que começaram a chegar em junho, ainda esbarram em operários de uniforme.

Esse é um bairro novo da periferia da cidade do interior de São Paulo, feito para brasileiros que ganham até seis salários mínimos, mas concebido por mexicanos. O Jardim das Paineiras, como foi batizado, é o primeiro empreendimento da maior construtora do México - a Homex - no Brasil.

O ambiente inacabado e carente de aperfeiçoamento é reflexo de como tem sido a experiência da companhia em terras brasileiras desde o fim de 2007, quando a Homex desembarcou no País. Na época, a chegada causou alvoroço entre os concorrentes. Muitos deles já haviam visitado a sede da empresa no México para conhecer (e copiar) sua estratégia de construção em série de imóveis para baixa renda.

Lá, ela é uma potência. No ano passado, vendeu 58 mil unidades, enquanto as três maiores empresas imobiliárias brasileiras - PDG, Cyrela e MRV - comercializaram aqui, juntas, 63 mil. No Brasil, a Homex é apenas uma sombra de sua operação mexicana. Só neste ano a filial conseguiu concluir a venda das primeiras 570 unidades: o que representa menos de 1% das vendas globais da empresa. "É insignificante", admite a presidente da Homex no Brasil, a mexicana Érika Taboada.

A demora para se firmar no País tem algumas explicações, na opinião de especialistas e empresários do setor. Primeiro, o fato de a empresa desconhecer o mercado brasileiro: mecanismos de crédito, perfil dos clientes e até os critérios para escolher um terreno. A própria Érika, quando chegou, conhecia pouco do mercado. "Sabia basicamente que era a terra do carnaval, do futebol e de gente feliz."

Foi também a falta de afinidade com o mercado local que obrigou a Homex a ter de desatar um nó já no primeiro ano de operação. A gigante mexicana se associou a uma construtora paulista e a sociedade não vingou. A desconhecida EOM, do empresário Jacques Khafif, chegou a ser dona de 33% da Homex Brasil. Nenhuma das partes dá detalhes do desentendimento, que culminou com a saída do sócio em agosto de 2008.

A parceria veio depois de uma série de investidas da família Nicolás, dona da Homex, para entrar no Brasil. O plano original era constituir uma joint venture com alguma empresa nacional. A Goldfarb, hoje controlada pela PDG, foi uma das assediadas pela companhia que já teve como sócio o megainvestidor americano Sam Zell.

Nada deu certo. E a Homex teve de se virar sozinha para iniciar a primeira operação fora do México. Logo que desfez a sociedade, foi à caça de profissionais na concorrência. Levou até a secretária de um executivo do mercado pelo triplo do salário.

Hoje, a empresa tem 1.050 funcionários. Na folha de pagamento, estão desde a equipe administrativa até pintores e corretores. Num esforço para reduzir custos e aumentar a rentabilidade dos imóveis para baixa renda - que representam 90% dos seus empreendimentos -, a empresa não terceiriza serviços como fazem as construtoras brasileiras. Também não investe em publicidade. Os clientes são caçados na rua, um a um.

Atrasos. A pensionista Jailma da Silva, de 37 anos, nunca tinha ouvido falar da Homex até encontrar um corretor na porta da casa onde vive de aluguel com a filha. Com uma renda mensal de dois salários mínimos, foi convencida a comprar uma "casa mexicana" de R$ 84 mil: sala e cozinha conjugadas, banheiro e dois dormitórios, em 45 m², com parede de cimento maciço. Fechou negócio e está arrependida.

As chaves foram entregues com seis meses de atraso. Quando, enfim, estava prestes a se mudar, o forro de um dos quartos caiu. A maçaneta da porta estava amassada; o banheiro, entupido; e as paredes tinham infiltração. "Não comprei a casa dos três porquinhos, comprei uma casa para morar." Como ela, outros moradores estão insatisfeitos. Reclamam que o imóvel entregue é diferente do projeto apresentado. "Colocaram textura na parede para disfarçar imperfeições e o quintal na frente da casa, que deveria ser plano, virou uma rampa", diz uma vizinha de Jailma.

Os auxiliares administrativos Samuel Ítalo e Hugo de Leon chegaram a contratar um advogado para processar a Homex. Eles tinham planejado a mudança em dezembro do ano passado e acordaram a demissão no trabalho para mobiliar o imóvel com o dinheiro da rescisão. Ficaram sem casa, sem emprego e tiveram de pagar mais seis meses de aluguel. "Agora, queremos ser indenizados."

A Homex oferece cinco anos de garantia para seus imóveis e diz que todas as reclamações têm sido solucionadas. O empreendimento de São José dos Campos, com 1.033 unidades - das quais 300 foram entregues - é um "aprendizado", segundo Érika Taboada. O terreno de 250 mil metros quadrados adquirido pela mexicana é considerado um "mico" por quem conhece o mercado. A área é muito íngreme, o que encarece a obra.

Adaptações. No México, a Homex é capaz de erguer uma casa em sete dias, mas ainda não conseguiu alcançar esse prazo no Brasil, porque o projeto original dos imóveis teve de ser adaptado aos padrões brasileiros. Os clientes, aqui, não aceitaram a laje impermeabilizada e pediram telhados nas casas. A mudança foi feita, mas parece não ter sido suficiente para agradar aos primeiros moradores. Muitos já iniciaram seus puxadinhos no fundo de casa e ergueram muros para se sentirem mais seguros.

Com a experiência em São José dos Campos, a Homex partiu este ano para Marília (SP) e Campo Grande (MS) e já estuda terrenos em outros nove municípios nas regiões Sul e Nordeste. Executivos de empresas brasileiras duvidam que a Homex consiga repetir aqui o sucesso alcançado na sua terra natal. Por um único motivo: o Brasil é diferente do México.

Planos frustrados

JAILMA DA SILVA

PENSIONISTA, CLIENTE DA HOMEX EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

"Não comprei a casa dos três porquinhos, comprei uma casa para morar."

CRISTIANE ALVES DE OLIVEIRA

DONA DE CASA, CLIENTE DA HOMEX EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

"Prometeram que íamos passar o último Natal na casa nova. Desde dezembro, está tudo empacotado e ainda não conseguimos mudar porque a casa está cheia de probleminhas."

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