A moda nos tempos do Instagram

Utilização da rede social de fotos em desfiles muda a maneira como estilistas, jornalistas e o público em geral captam as novas tendências

MATTHEW SCHNEIER , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h06

Na exposição de Dries Van Noten no Musée des Arts Décoratifs, em Paris, há um vídeo reunindo sequências de 20 anos de seus espetáculos na passarela. Numa visita guiada pela exposição oferecida há pouco tempo, Van Noten acenava positivamente com a cabeça enquanto momentos memoráveis eram exibidos: modelos masculinos pedalando bicicletas, mulheres caminhando sobre uma imensa mesa de jantar. Mas o que mais chamava a atenção era o número de pontos fantasmagóricos iluminando o rosto do público dos desfiles mais recentes. Eram os smartphones, como disse Van Noten.

Os fotógrafos profissionais posicionados imediatamente junto da passarela representam agora apenas uma fração daqueles que se ocupam furiosamente de documentar cada modelo, acessório e detalhe cenográfico. Quase todos os frequentadores do desfile, desde a primeira fila até a plateia mais distante, chegam agora com o celular em punho, já com o Instagram aberto.

Presente em cada par de mãos, a câmera do smartphone se tornou tão pouco notável que, quando Danielle Sherman, diretora de criação da Edun, solicitou um diretor e um esquadrão de 20 iPhones 5s emprestados para criar um vídeo de sua coleção outono 2014, quase não houve surpresa. "Ninguém disse nada, nem questionou, nem mesmo notou", disse ela.

Assim é a moda na era do Instagram, um período no qual a mídia digital está mudando a maneira com a qual as roupas são apresentadas ou mesmo desenhadas. Conforme os desfiles são ajustados para se tornarem experiências socialmente compartilhadas, e a própria moda é repensada para atrair os olhares numa tela bidimencional, alguns céticos indagam a respeito daquilo que é perdido ou sacrificado quando a moda é submetida ao moinho digital. Não resta dúvida que o advento da mídia digital alterou a moda de maneira fundamental, diz o estilista Alexander Wang: "Houve uma mudança na forma de fotografar, na forma de exibir e na forma de fazer e desenhar as roupas".

Revolução. A mídia digital alterou também a maneira de cobrir a moda, de consumi-la e compartilhá-la. As publicações e sites especializados no setor que antes se consideravam o reduto do jornalismo de moda tiveram seu território invadido por indivíduos. "Agora vejo os desfiles no Instagram", disse Eva Chen, editora-chefe da Lucky, site especializado em moda.

"Num certo sentido, cada pessoa no público é seu próprio canal de mídia", disse Keith Baptista, sócio gerente da Project, a agência de talentos de criação que produz desfiles para clientes como Wang, Giorgio Armani e Ralph Lauren. "Todos registram esses momentos da experiência ao vivo para contar suas próprias histórias." (Vale dizer que Eva Chen, por exemplo, tem 10 mil seguidores a mais no Instagram no que a revista na qual ela trabalha.)

Dois mundos. Criar uma experiência única - e, por extensão, compartilhável - para os desiludidos frequentadores dos desfiles é algo se que tornou parte da responsabilidade de um estilista. Os desfiles são pensados para impressionar não apenas os frequentadores, mas também todos os seus seguidores. (Isso pode ser considerado um necessário retorno do investimento, pois, de acordo com Julie Mannion, presidente de serviços de criação da firma de produção e relações públicas KCD, um grande desfile pode custar entre US$ 2 milhões e US$ 8 milhões).

A designer londrina Mary Katrantzou tem consciência das possibilidades de mostrar seu trabalho na rede desde a época em que era estudante da Central Saint Martins. Depois de criar uma coleção incluindo várias saias com armação, ela se lembrou de Louise Wilson, a extrovertida diretora do programa de mestrado da faculdade, berrando: "A parte da frente, Mary! Só se pode ver a frente no Style.com!". Como no caso de muitos de sua geração, as estampas brilhantes e a paleta de cores usadas por ela podem ter sido afetadas pelo espaço digital, como indica Tiziana, mas Mary diz que isso levou sua obra a se destacar em meio a tantas novidades na rede, conferindo a ela uma vantagem em relação aos estilistas que não estão conscientes do apelo que seus artigos podem ter na internet.

E, para os estilistas, é importante lembrar que, no novo mundo, cada celular pode ser uma câmera. Quando Mary introduziu o comércio eletrônico em seu site, ela usou o Instagram par tirar uma foto de um minivestido chamado Midnight Chrysa, mostrada aos seus seguidores. Trata-se de "um vestido impositivo", disse ela, com preço de US$ 8.680. Ela vendeu três naquele dia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.