A moleza pode acabar

O equacionamento da crise fiscal é mais urgente do que nunca. A paciência do resto do mundo está acabando

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2018 | 05h00

A inflação de janeiro nos Estados Unidos acendeu uma luz amarela no painel de controle da economia brasileira – assumindo que temos algo parecido. Os preços ao consumidor aumentaram 0,5% no mês passado, acima das expectativas dos analistas. Parece pouco, mas pode ser a senha para o fim de um longo período em que juros muito baixos foram a regra nas principais economias do mundo. 

Os juros pagos por títulos americanos com prazo de 10 anos estão muito abaixo do padrão histórico. Na década terminada em 1997, estes papéis pagaram 7,31% ao ano. Na década seguinte, a remuneração média anual recuou para 4,83%. Nos dez anos até 2017, a taxa ficou ainda menor: 2,57%. Hoje aponta para 3%. Nas taxas básicas pagas em operações de curto prazo, o patamar é irrisório.

Depois de terem alcançado 5% em 2007, na média diária, foram derrubadas para 0,25% em 2009, no rastro da crise de 2008, onde permaneceram seis anos consecutivos. No ano passado, após elevações homeopáticas, ficaram em 1,13%. O que ocorreu nos Estados Unidos foi replicado, em maior ou menor grau, em todos os países ricos. 

Há várias razões para que os juros internacionais sejam tão baixos. Aumento na poupança financeira é uma delas. Isto ocorreu por uma alteração demográfica nas economias desenvolvidas e também pelo rápido crescimento da China, cujo gigantesco superávit em transações correntes precisa ser reciclado de alguma forma. Também é fato que o volume de investimentos nos países desenvolvidos requer hoje menos recursos, dado que parcela crescente do capital é composta por ativos “intangíveis” (a este respeito, vale a leitura do livro de Jonathan Haskel, Capitalism without Capital). 

Os bancos centrais também atuaram no sentido de derrubar os juros. Não só mantiveram as taxas básicas perto de zero, como assumiram a prática pouco ortodoxa de comprar títulos públicos e privados. Desde 2009 estas aquisições somaram nada menos que US$ 11 trilhões, algo como seis vezes o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Este dinheiro brota do chão e torna os mercados internacionais muito mais propensos a aceitarem riscos, favorecendo enormemente a vida dos países emergentes. 

Em junho do ano passado, a Argentina, que já deu seis calotes na sua dívida externa, conseguiu colocar um papel com prazo de 100 anos. Para uma emissão de US$ 2,75 bilhões, a demanda alcançou US$ 9,75 bilhões. Não se trata de confiança ou de credibilidade. É apenas falta de opção. O papel argentino pagou na largada mais de 7% ao ano, ao passo que um título do Tesouro alemão de 30 anos, bem mais curto, rendia na época pouco mais de 1% ao ano. 

A complacência dos investidores internacionais também nos favorece – e muito. Em dezembro de 2015, a relação Dívida Pública/PIB no Brasil, tradicional indicador de solvência, estava em 65%, ao passo que o Embi (que indica os juros adicionais que temos de pagar para colocar papéis no mercado) era de 533 pontos. No final de 2017, a dívida já alcançava 74% do PIB, sinalizando clara deterioração das condições fiscais, mas o risco Brasil tinha caído para 241 pontos. 

A tolerância generosa dos mercados internacionais tende a se restringir à medida que sobem os juros internacionais. Com a perspectiva de crescimento mais rápido da Europa e dos Estados Unidos esta elevação é inevitável. Não será abrupta a ponto de provocar uma ruptura no padrão de financiamento, mas tudo sugere que os melhores tempos já se foram. O equacionamento da crise fiscal é mais urgente do que nunca. A paciência do resto do mundo com nossa protelação está acabando. 

* ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E FUNDAÇÃO

GETÚLIO VARGAS-SP; E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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