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A montanha mágica de dólares

Reencontram-se em Davos os homens mais ricos do planeta, que vão carregados de grandes intenções, mas não deixam de usar seus luxuosos carros e helicópteros bebedores de combustível fóssil

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2020 | 07h00

Como em todos os anos, reencontram-se em Davos, tendo ao fundo a neve, as vacas e a Montanha Mágica que deu título ao primeiro romance do grande Thomas Mann, os homens mais ricos do planeta. Vão carregados de grandes intenções, mas não deixam de usar seus luxuosos carros e helicópteros bebedores de combustível fóssil. 

 Há muito que Davos é execrada pela esquerda como um dos maiores símbolos do capitalismo. É verdade que as somas enormes gastas na organização dos encontros por Klaus Schwab, o mantenedor do luxo, provêm de nababos capitalistas. Mas é também verdade que um dos segredos do sucesso de Davos está na abertura de espírito das reuniões.

Davos tem como ponto de honra reunir personalidades contraditórias. A jovem ativista sueca do meio ambiente Greta Thunberg acusou seu auditório de nada fazer contra o aquecimento global e legar aos jovens e crianças um planeta devastado pelo CO2 e outras pragas. Em meio a esse lirismo apocalíptico, prosseguia o balé fantasmagórico de jatos executivos, helicópteros e carros dignos das mil-e-uma-noites. Haja CO2!

Para assegurar à plateia que o apocalipse não está tão próximo, a vedete seguinte foi Donald Trump. Como a jovem Greta Thunberg, ele repetiu o que sempre diz, mas com uma pegada otimista, ao contrário das profecias da sueca. Segundo ele, o aquecimento global é piada, assim como as reumáticas federações de povos, que devem dar lugar a relações diretas entre países visando a projetos precisos. Trump explicou que, embora “os EUA não tenham vocação para guardiães do mundo”, vão desatar pouco a pouco os nós com que outros países se amarraram.

Tal é o futuro radioso anunciado por Trump, ancorado no passado, mas que avança. “Peguei um país em ruínas e fiz dele um paraíso”, garantiu. Descontando-se a tendência ao exagero, pecado menor de Trump, a verdade é que, ao contrário de uma Europa enfraquecida, os Estados Unidos de Trump colecionam sucessos. Estaria ele fazendo apologia dos ricos, pelos quais os convidados de Davos têm um fraco? De jeito nenhum! O que Trump ama mesmo são os operários – sobretudo quando os EUA se aproximam da eleição presidencial.

Quem o ouve imagina um Carlitos ressuscitado, aquele de Tempos Modernos. Na defesa dos trabalhadores, Trump encontrou um aliado poderoso, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que não apareceu em Davos. “A prioridade do primeiro-ministro é trabalhar pelo povo, não tomar champanhe com bilionários", informou Downing Street.

No jornal francês Libération, o diretor, Laurent Joffrin, raciocinou: “Continuaremos ouvindo apelos angustiados contra o aumento das emissões de CO2. Uma medida imediata para reduzi-las seria simplesmente suprimir o encontro anual de Davos”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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