A morte de um servidor

Dominique Strauss-Kahn, ex-ministro da Economia da França e ex-deputado, assumiu a direção do Fundo Monetário Internacional (FMI) no começo de novembro, nove anos depois de Alexandre Kafka haver deixado seu posto na diretoria-executiva, onde representava o Brasil e mais nove economias da América Latina e do Caribe - Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago. No dia 30 de novembro, o serviço de imprensa da instituição divulgou pela internet uma nota assinada pelo novo diretor-gerente. Primeiro parágrafo da nota: "Entristece-me saber da morte de Alexandre Kafka, que recordo por seu profundo e empenhado serviço à comunidade internacional como diretor-executivo do FMI por mais de três décadas. Em nome dos muitos amigos e ex-colegas de Alexandre no Fundo, gostaria de estender minhas condolências à família." Seguem-se mais dois parágrafos a respeito da personalidade e da carreira do antigo representante do Brasil.Brasil, 5 de dezembro: nenhuma nota, ainda, no site do Ministério da Fazenda sobre a morte do ex-funcionário, ocorrida na última quarta-feira de novembro, em Washington, e lá anunciada por um porta-voz do FMI. A única manifestação oficial do governo a respeito do assunto apareceu no site do Banco Central (BC), num breve e digno texto de homenagem. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, permaneceu distante do fato, assim como outras autoridades federais.Excetuada a nota do BC, tudo se passou, nos meios oficiais de Brasília, como se Alexandre Kafka nunca tivesse existido, ou, pelo menos, nunca tivesse desempenhado um papel de alguma importância na administração pública do País.Mas Kafka, nascido em Praga, na Checoslováquia, naturalizado brasileiro e casado com brasileira, foi personagem de enorme importância na vida econômica e administrativa do Brasil durante seis décadas. Formado em Praga, Genebra e Oxford, foi um dos pioneiros do ensino e da pesquisa em economia, no País, como já indicaram as biografias divulgadas em jornais poucos dias depois de sua morte. Antes de representar o Brasil na instituição, foi subchefe da Divisão Latino-americana do Fundo, entre 1949 e 1951. Assumiu o posto de diretor-executivo, como representante do Brasil e de países de seu grupo, em 1966, convidado pelo ministro da Fazenda Octávio Gouvêa de Bulhões.Quando correu a notícia da indicação, um coronel do Serviço Nacional de Informações procurou o ministro do Planejamento, Roberto Campos, para adverti-lo do perigo de nomeação de um estrangeiro, um checo, para um posto de importância estratégica. Campos respondeu com uma alusão às mães de muitos calhordas nascidos no Brasil por acidente biológico. Alexandre Kafka, lembrou o ministro do Planejamento, não era apenas um economista experiente e de grande formação: era também cidadão brasileiro por escolha.Kafka passou os 32 anos seguintes como membro da diretoria-executiva do FMI e terminou sua carreira como decano da instituição. Tornou-se uma figura respeitada nos meios oficiais de Washington - e também nos meios acadêmicos - e sua habilidade diplomática tirou o Brasil de enrascadas mais de uma vez.Repórteres veteranos na cobertura de economia e finanças internacionais aprenderam a respeitar Alexandre Kafka por sua competência, por seu empenho em negociações freqüentemente difíceis e, é claro, por seu humor às vezes impiedoso. Não era difícil ser recebido em seu escritório, na sede do Fundo, para um briefing sempre claro e muito informativo sobre os temas em discussão. Discreto, ele preferia evitar entrevistas, mas era generoso na indicação de pistas, quando conversava reservadamente.Seu prestígio era evidente e foi um ativo importante para o Brasil em períodos de muita dificuldade. Agiu sempre, em suas atividades públicas, como se as maiores trapalhadas cometidas por autoridades brasileiras fossem perfeitamente defensáveis. Não deixava de avaliar e de criticar as decisões tomadas pelo governo, mas não o fazia em público e não criava conflitos. Como representante no Fundo, cumpria seu papel segundo o manual do bom servidor: importante era o País, não o governo.Pode ser lamentável, mas não é surpreendente, o silêncio da maior parte das autoridades brasileiras em relação a Kafka, o servidor público. Mas não se pode acusá-las de incoerência: por suas qualidades intelectuais, por sua competência e por sua fidelidade ao trabalho, Alexandre Kafka seria um péssimo exemplo, quando se tenta converter o funcionalismo no reino feliz dos companhêro.*Rolf Kuntz é jornalista

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