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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

A mudança que pode vir dos investimentos e do câmbio

ANÁLISE: Rogério César de Souza *

O Estado de S.Paulo

12 de março de 2014 | 02h08

O crescimento substancial de 2,9% da produção da indústria brasileira em janeiro ante dezembro (com ajuste sazonal) não suscita entusiasmos. Sem sombra de dúvidas, é muito positivo que a produção de janeiro tenha crescido a essa taxa, mas ela não repõe a queda de 4,3% nos dois últimos meses de 2013 e não sinaliza, absolutamente, que a atividade produtiva da indústria deixou de trilhar aquele caminho tortuoso observado há mais de um ano e meio, ou ainda aquela trajetória marcada por um sobe e desce vertiginoso.

O fraco comportamento da indústria nacional nos últimos anos - após o pífio crescimento de 0,4% em 2011 e da retração de 2,4% em 2012, a produção avançou somente 1,2% no ano passado - decorre da perda de competitividade dos produtos, seja no mercado doméstico ou internacional. Tal perda tem suas causas mais diretas no longo período de moeda nacional valorizada, nos investimentos insuficientes em infraestrutura, num ambiente de negócios pouco favorável e no acirramento da concorrência global desde 2009. Ao se somar a isso uma evolução composta por baixas taxas de produtividade e aumentos reais dos custos do trabalho, tem-se um esboço do quadro da crise na indústria brasileira.

A expectativa é que, neste ano, sobretudo puxada pelos investimentos, a indústria dê sinais de uma reação mais consistente. O setor de bens de capital parece dar algum suporte a tal expectativa. Começou janeiro se recuperando parcialmente (aumento de 10% da produção ante dezembro, com ajuste sazonal) das retrações em novembro e dezembro de 2013 e foi o único grande setor que cresceu (2,5%) na comparação com janeiro de 2013. Além disso, chama a atenção o ganho de ritmo dos segmentos produtores de bens de capital para a indústria e para a construção, segmentos reconhecidamente de grande empuxo na economia.

Mas tal reação dependerá muito do que ocorrerá com o setor de bens intermediários. Vale lembrar que, em 2012, a atividade produtiva desse setor recuou 1,4% e, no ano passado, ficou estagnada. O avanço de 1,2% em janeiro captado pela pesquisa do IBGE não diz muito, pois a produção de intermediários caiu 4,2% em dezembro - em relação ao mês imediatamente anterior, com ajuste sazonal. A desvalorização do câmbio, além de favorecer a indústria pelo lado das exportações, poderá favorecer a retomada da produção doméstica de bens intermediários, cuja produção tem sido desbancada pela enxurrada de importados. No entanto, esse efeito do câmbio sobre a produção nacional não é fácil de estimar, já que há um movimento de desvalorização de moedas, inclusive de importantes parceiros comerciais do Brasil.

Portanto, investimentos e câmbio serão as variáveis-chave para um desempenho mais consistente em 2014, ou seja, para que a indústria entre em nova trajetória, em que a produção cresça a taxas positivas, sem muitas oscilações, ainda que modestas.

*Economista do IEDI

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