Reprodução/NASA
Reprodução/NASA

A música do cometa

A sonda Philae aterrissa com sucesso no cometa e capta uma 'música' produzida por oscilações do campo magnético

Economist.com

14 de novembro de 2014 | 11h43


No dia 12 de novembro a Agência Espacial Europeia anunciou, com uma mistura de alívio e triunfo, que a sonda robótica Philae tinha aterrissado com sucesso no alvo, um cometa de 4km de largura chamado 67P/Churyumov-Gerasimenko. 

Tratou-se de um feito técnico notável. Mas, com o passar dos minutos e das horas, tornou-se claro que as coisas não tinham ocorrido inteiramente de acordo com o plano. Agora começa a vir a tona uma ideia geral do que deu errado. A sonda aterrissou com sucesso, mas está na posição errada, e talvez não tenha se fixado devidamente ao cometa.

Pousar num cometa é difícil, mesmo para os padrões das aeronaves robóticas. Diferentemente dos planetas, os cometas não têm atmosfera, que pode ser usada para desacelerar a descida de uma sonda espacial, nem gravidade, que prende a sonda à superfície após o pouso. 

Como o cometa 67P é minúsculo, sua gravidade é tênue. Qualquer coisa que se erga da superfície a uma velocidade superior a aproximadamente um metro por segundo vai escapar do alcance da gravidade, e seguir avançando para o espaço. Assim sendo, era vital que a Philae aterrissasse com graça, e tivesse meios de se manter no lugar depois do pouso. Mas agora sabemos que isso não ocorreu, no que pode ser descrito como um golpe do azar.

Som do cometa: oscilações magnéticas inaudíveis ao ouvido humano foram amplificadas 10 mil vezes 


Os projetistas da sonda equiparam a nave com várias soluções diferentes para ancorá-la ao local do pouso. Um pequeno foguete foi desenvolvido para ser ativado no momento do pouso para empurrar a nave contra o cometa e impedir que ela quicasse na superfície; este parou de funcionar antes mesmo de a Philae se separar da nave-mãe,Rosetta. 

Os controladores da missão da AEE decidiram prosseguir mesmo assim, confiando num par de arpões projetados para serem disparados contra a superfície do cometa e ancorar a Philae no lugar. No momento crucial, estes não foram ativados durante o pouso.

Para complicar ainda mais a situação , parece que o cometa é feito de um material mais duro do que o esperado. Quando a Philae atingiu a superfície, suas pernas absorveram parte da energia do impacto - mas não o bastante para evitar um rebote. E como a gravidade do 67P é fraca, bastou um leve tranco para fazer a sonda quicar centenas de metros de volta para o espaço.

No decorrer de quase duas horas, a gravidade do cometa desacelerou o deslocamento da Philae e a atraiu de volta, mas então a sonda quicou pela segunda vez. Sete minutos mais tarde, ela finalmente se estabilizou.

Enquanto a sonda estava de volta ao espaço, o cometa continuou sua rotação logo abaixo e, com isso, quando aPhilae finalmente repousou na superfície, ela estava distante do local de pouso original (a AEE ainda não confirmou a localização exata). Pior: a sonda está pousada num ângulo incomum, na sombra de um penhasco, com duas de suas pernas no cometa e uma suspensa no ar. 

Isso significa que seus painéis solares recebem luz durante apenas uma hora e meia por dia. Se o Sol não puder recarregar a bateria secundária da aeronave, os controladores da missão terão de tomar decisões difíceis a respeito de como usar a carga restante na bateria primária. Uma das opções pode ser usar as pernas da sonda para tentar levá-la a um ponto mais ensolarado.

Tudo isso tem sido um drama envolvente para o público que acompanha a missão. Mas os cientistas responsáveis pela missão reiteraram que, independentemente do resultado, a Philae já está realizando aquilo que foi projetada para fazer. Seu programa de ciências foi pensado para durar dois dias. 

Oito dos dez instrumentos estão funcionando, ela está em contato com a Rosetta, e, desde o início, coleta dados furiosamente (foi analisando a força do campo magnético do cometa que a AEE conseguiu inferir que a sonda tinha quicado). Entretanto, sem conseguir se fixar melhor, talvez ela não consiga usar uma broca projetada para coletar amostras da superfície, por medo de o torque do motor fazer com que a sonda saia rodopiando.

Embora seja a parte mais empolgante da missão Rosetta, a Philae é apenas uma peça do quebra-cabeça. A Rosetta vai continuar na órbita do cometa, monitorando-o em sua aproximação na direção do Sol, que chegará à menor distância em agosto de 2015. A essa altura, o sucesso da histórica primeira aterrissagem num cometa deve ser considerado parcial. Mas os cientistas e engenheiros da missão, embora exaustos após dois dias de trabalho ininterrupto, ainda estão sorrindo.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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