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A música e os investimentos

O que falta para que ativos globais ganhem, no Brasil, a relevância dos Beatles ou dos Rolling Stones?

Marcus Vinícius Gonçalves*, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 04h00

Este ano marca o aniversário de 250 anos do nascimento de Beethoven, uma data que será muito celebrada ao redor do mundo. Ainda que você não seja fã de música clássica, certamente já terá ouvido algumas das mais famosas obras do compositor, mesmo que totalmente fora de contexto (como no caminhão de gás). E, mesmo que não goste, há de concordar que o fato de sua obra ser ainda tão presente após mais de dois séculos se deve não apenas à sua inegável qualidade, mas também ao seu caráter universal e atemporal, que ultrapassa fronteiras e permite que nos sintamos mais próximos, semelhantes em nossa condição humana de apreciadores de um trabalho inspirador. Isso vale para Beethoven, mas vale também para rock, pop, jazz, etc. A música é a linguagem universal por excelência.

E se a ausência de fronteiras fosse aplicada ao mundo dos investimentos?

Até recentemente, as plataformas de distribuição de investimento no Brasil, as rádios e Spotifys do mercado financeiro, não tocavam outra música que não aquela criada e executada pelos maestros locais. Competência dos gestores brasileiros à parte, os investidores não tinham acesso a acordes distintos do que convencionamos chamar de “kit Brasil”, e portanto encontravam bastante limitada a sua capacidade de “educar o ouvido” – e o bolso – para ativos com características diferentes. O fenômeno que o mercado chama de home bias era um verdadeiro “samba de uma nota só”, a bossa-nova da dívida pública com alta liquidez, rentabilidade e segurança, a famosa tríade impossível que entorpecia a todos.

Felizmente para o País, o cenário de forte redução das taxas de juros tem estimulado a procura por retornos em ativos de natureza distinta, a peculiar bossa-nova gradativamente dando lugar a outros gêneros. Neste contexto, acreditamos que o investimento em ativos globais apresenta um enorme potencial de crescimento, por sua diversidade e amplitude. Da mesma forma que a biblioteca de músicas “globais” disponíveis nas plataformas digitais supera vastamente a oferta de músicas brasileiras, a quantidade e variedade de ativos negociados fora do Brasil representa um múltiplo infinitamente maior que os ativos locais. Assim, não faz sentido falar em “ativos no exterior”, da mesma forma que não faz sentido falar em “músicas estrangeiras”. A música brasileira e os ativos brasileiros é que representam algo muito específico e peculiar, de alta qualidade decerto, mas longe de serem exaustivos, mais um caso particular de um universo infinitamente maior de possibilidades.

O que falta, então, para que os ativos globais ganhem, no Brasil, a relevância dos Beatles ou dos Rolling Stones?

Do ponto de vista regulatório, houve avanços significativos ao longo dos últimos anos, com destaque para as Instruções CVM 555 e 558 (fundos em geral) e as Resoluções 4.661 e 4.769 (entidades de previdência). Em que pese a limitação para que o público em geral tenha acesso a fundos que invistam 100% no exterior, as regras atuais são muito mais acomodativas do que jamais tivemos, e o investimento global deixou de ser visto, pelo menos pelo regulador, como algo criminalizado ou antipatriótico.

Se a regulação avançou, a grande barreira ainda a ser vencida é a da familiaridade. Diversos estudos de Psicologia mostram que as pessoas resistem ao novo, mas que a exposição continuada reduz tal resistência. A repetição maciça da obra de determinado artista nos meios de comunicação transforma alguns de nós em “fãs de carteirinha” dos Ed Sheerans e Coldplays, ainda que o inglês não seja nossa língua corrente. No mundo dos investimentos, em contrapartida, essa oferta ainda é muito tímida por meio dos canais de distribuição, e isso talvez explique o desconhecimento do público em geral em relação ao que já pode ser feito.

Não é preciso ser letrado em música ou em línguas estrangeiras para apreciar uma bela canção ou um bom concerto. O talento não tem fronteiras, a interação e o conhecimento com outras culturas nos enriquecem.

* DIRETOR-PRESIDENTE DA FRANKLIN TEMPLETON INVESTIMENTOS

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