André Dusek/Estadão
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Fábio Alves
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A narrativa do Copom

Cresce a probabilidade de que o ciclo de corte de juros acabe na semana que vem

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 04h00

Depois que o IPCA-15 de julho veio abaixo até do piso das estimativas dos analistas, consolidou-se no mercado a aposta de um corte da taxa Selic de 0,25 ponto porcentual, para 2,0%, na próxima reunião do Copom, nos dias 4 e 5 de agosto, mas o ponto crucial é o que o Banco Central vai dizer no seu comunicado: se o ciclo de redução de juros acabou ou se vai deixar a porta aberta para outro corte.

Na sua última reunião, quando baixou os juros básicos em 0,75 ponto, para os atuais 2,25%, o Copom avisou que, eventual ajuste futuro na Selic, seria “residual”. É bom lembrar que, naquele contexto, o BC projetava uma queda de 6,4% do PIB brasileiro neste ano. Desde então, o mercado vinha dividido entre a aposta de manutenção, diante de dados de atividade melhores do que o esperado, e de corte da taxa.

Aliás, com as surpresas positivas dos indicadores recentes, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, chegou a dizer que a projeção de PIB do Banco Central era “pessimista” e que os dados de alta frequência da economia apontavam uma perspectiva melhor, o que coloca um risco para cima da inflação em 2021, que passou a ser o horizonte relevante da política monetária.

De fato, na mais recente pesquisa Focus, do BC, a projeção do PIB deste ano passou de um tombo de 6,54%, há quatro semanas, para uma queda menor, de 5,77%. E a estimativa de inflação deste ano está em 1,67%. Por outro lado, a previsão de crescimento do PIB em 2021 permanece em 3,50% há nove semanas e a de inflação, de 3,0%, está inalterada há seis semanas.

Mas o resultado do IPCA-15 de julho, que subiu 0,30%, enquanto o consenso dos analistas era de uma alta de 0,51%, acabou pendendo as apostas para um corte de 0,25 ponto na reunião do Copom da próxima semana.

Se, do último Copom para cá, o consenso das estimativas do PIB em 2020 vem migrando para uma queda menor do que se imaginava, é verdade também que as projeções de IPCA para 2021 se mantiveram estáveis. E o viés de baixa na inflação corrente já está tendo, na margem, impacto nas estimativas de IPCA de 2021.

Essa avaliação acima resolve a questão da decisão na próxima semana: há espaço para um mais um corte, de 0,25 ponto. E depois disso? Há apenas duas alternativas.

A primeira é que o Copom poderá repetir que segue havendo um espaço residual para o afrouxamento monetário, levando o mercado a apostar em um corte adicional de juros, provavelmente de 0,25 ponto, na reunião seguinte, de setembro.

A segunda é dizer que o estímulo monetário, após o corte residual de 0,25 ponto na semana que vem, já é suficiente e que o ciclo de redução de juros finalmente acabou. Especialmente se expressar uma preocupação maior com a situação fiscal adiante.

Mas se o Copom disser que não vai cortar mais juros, após a decisão de agosto, e a expectativa de inflação de 2021 por acaso começar a sofrer pressão para baixo, seria recomendável sinalizar no comunicado desde já que as condições demandam a manutenção de estímulo monetário elevado por um tempo prolongado. Em outras palavras: que não pretende elevar os juros tão cedo.

Na fotografia de hoje, qual dessas duas alternativas deverá prevalecer no comunicado do Copom? Num ambiente tão volátil e instável de pandemia do coronavírus ainda sem controle, a semana que vem parece uma eternidade.

Até a reunião do Copom, o Banco Central terá a oportunidade de coletar dados de alta frequência, como consumo de energia, mobilidade, frequência de restaurantes, arrecadação de tributos e gastos de cartão de crédito, para decidir se a retomada da economia está perdendo fôlego ou não diante do aumento de novos casos e de mortes pelo novo coronavírus no Brasil e no mundo.

Nos últimos dias, esses dados de alta frequência têm mostrado uma desaceleração no ritmo de recuperação observado em junho. E isso poderá tirar o fôlego das projeções do IPCA em 2021, que já estão bem aquém da meta de inflação, de 3,75%. Nesse caso, cresce a probabilidade de o Copom sinalizar que o ciclo de corte de juros não acaba na semana que vem. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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