A nossa era das bolhas

A maior ameaça hoje é uma reação excessiva dos mercados emergentes - ou seja, que seus bancos centrais elevem os juros na tentativa de sustentar suas moedas

PAUL, KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2013 | 02h10

Na realidade, este conceito de Bric - Brasil, Rússia, Índia e China - nunca me agradou muito: a Rússia, que basicamente é uma petro-economia, na realidade não pertence ao grupo; além disso, existe uma enorme diferença entre os outros três. No entanto, não se pode negar que Índia, Brasil e vários outros países experimentam neste momento problemas semelhantes. E estes problemas comuns definem a crise econômica da atualidade.

O que acontece? O que acontece é uma outra versão da velha história de sempre: os investidores que privilegiavam estas economias (talvez não fossem muito prudentes, mas enfim) agora começam a dar as costas ao objeto do seu carinho. Há alguns anos, os investidores ocidentais - desestimulados pelos baixos retornos nos Estados Unidos e nas nações europeias não atingidas pela crise - começaram a despejar enormes somas nos mercados emergentes. Agora, inverteram o curso. Consequentemente, a rupia da Índia e o real do Brasil estão despencando, juntamente com a rupia da Indonésia, o rand sul-africano e a lira turca, além de outros.

Esta inversão da tendência representará uma grave ameaça para a economia mundial? Não acredito (digo isto cruzando os dedos).

A verdade é que o investidor perdeu a confiança e que a consequente desvalorização destas moedas provocou profundas crises econômicas em grande parte da Ásia nos anos 1997-98. Mas a questão crucial na época foi o fato de que, nos países afetados pela crise, muitas empresas tinham grandes dívidas em dólares, de modo que a desvalorização das moedas produziu de fato um aumento vertiginoso de suas dívidas, criando enormes problemas financeiros. Este drama não está completamente ausente da atual situação, mas parece muito menos grave.

Na realidade, devo incluir-me entre os que acreditam que a maior ameaça neste momento é uma reação excessiva dos mercados emergentes - ou seja, que seus bancos centrais elevarão consideravelmente os juros na tentativa de sustentar as respectivas moedas. Ocorre que não é exatamente disto que eles e o resto do mundo precisam neste momento.

No entanto, mesmo que as notícias da Índia e de outras partes do mundo não sejam apocalípticas, não é o que gostaríamos de ouvir quando as economias mais saudáveis do mundo, ainda que hoje estejam numa situação um pouco melhor do que há alguns meses, se encontram numa profunda depressão e lutam para se recuperar.

Esta última tempestade financeira levanta uma questão mais ampla: Por que estamos tendo tantas bolhas? Pois agora está claro que o fluxo de recursos despejados nos mercados emergentes - que rapidamente provocou uma valorização da moeda brasileira de quase 40%, agora completamente revertida - foi mais uma na longa lista de bolhas financeiras na última geração. É claro que houve uma bolha da habitação. Mas antes disso, houve a bolha das dot.com; e antes disso, a bolha asiática de meados dos anos 90; antes disso ainda, a bolha dos imóveis comerciais dos anos 80. A propósito, a última bolha impôs um custo enorme aos contribuintes, obrigados a salvar as instituições de poupança e empréstimos que faliram.

Juros. Ocorre que nem sempre foi assim. Os anos 50, 60, e até mesmo os conturbados 70 não foram praticamente propensos às bolhas. O que foi então que mudou? Uma resposta muito comum consiste em culpar o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) - ou seja, as políticas de crédito fácil de Ben Bernanke e, antes dele, de Alan Greenspan. Por outro lado, é verdade que, nos últimos anos, o Fed tentou de todas as maneiras baixar os juros, tanto pelas medidas convencionais quanto por medidas não convencionais, como a compra de títulos de longo prazo. A queda consequente dos juros com certeza contribuiu para levar os investidores a procurar outros lugares para colocarem o seu dinheiro, inclusive nos mercados emergentes.

Mas o Fed só estava cumprindo sua obrigação. A função do banco é baixar os juros sempre que a economia entra em depressão e a inflação é baixa. E o que dizer da série das primeiras bolhas, que, a esta altura, remontam a uma geração atrás? Eu sei que alguns acreditam que o Fed vem mantendo os juros demasiado baixos, e imprimindo dinheiro demais. Entretanto, os juros dos anos 80 e 90 eram realmente elevados em termos históricos, e durante a bolha da habitação se mantiveram dentro das normas históricas. Além disso, o sinal da impressão excessiva de dinheiro não deveria ser um aumento da inflação? Tivemos toda uma geração de bolhas sucessivas - e a inflação é menor do que era no começo.

O outro culpa do óbvio é a desregulamentação dos mercados financeiros - não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, e inclusive a retirada da maior parte dos controles da movimentação internacional de capital.

Bancos enlouquecidos estavam no centro da bolha dos imóveis comerciais dos anos 80, e na bolha da habitação que explodiu em 2007.

Os ingressos de hot money vindo do exterior estiveram no cerne da crise asiática de 1997-98 e na crise que agora explode nos mercados emergentes - e também estiveram no centro da atual crise nos países europeus.

Em resumo, a principal lição desta era de bolhas - uma lição que Índia, Brasil e outros países estão aprendendo mais uma vez - é que quando o setor financeiro fica livre para fazer o que quer, acaba oscilando de uma crise para outra. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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