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A nova bonança e o risco de outra perda de oportunidade
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Celso Ming
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A nova bonança e o risco de outra perda de oportunidade

A exuberância nas contas externas devido ao bom desempenho das exportações é oportunidade rara que pode servir de base para pôr em ordem a economia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 20h16

Demorou, mas os que acompanham a economia começaram a se dar conta de que o País surfa uma superonda de commodities, que já começou e continuará a ter impacto sobre toda a atividade.

 


Algumas dessas consequências positivas já vêm sendo largamente avaliadas pelos analistas. Outras estão alinhavadas adiante. Mas há grave risco a evitar: o de que o País desperdice mais este ciclo de bonança externa e deixe de usá-lo como alavanca para superar problemas e preparar a economia para novo salto.

Alguns números mostram a cavalgada nos preços das commodities. As cotações da soja subiram em 12 meses 80%; as do milho, 84%; as do minério de ferro, 123% (veja gráficos). É a forte demanda, na cola da retomada da economia mundial. A China deve crescer este ano 8,4%; os Estados Unidos, 6,4%; e a economia mundial, 6,0%, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional.

Já houve quem sugerisse que essa alta fosse passageira. É a conclusão de quem vê nessa disparada apenas um movimento de recomposição de estoques zerados durante a pandemia. Há razões para acreditar que essa avaliação está errada.

O presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, acaba de lançar um pacote de investimentos em infraestrutura e energia limpa, de US$ 2,3 trilhões. A China também vem operando grande expansão que tem como referência a Nova Rota da Seda, prevista para estar concluída em 2049 e que vai interligar Ásia, Oriente Médio, o norte da África e Europa por rotas terrestres e marítimas. 

A demanda por aço e demais metais parece consolidada. Os novos investimentos e, especialmente, o aumento do consumo na Ásia deverão puxar a demanda por alimentos.

Fato pouco analisado é o de que está em curso a inclusão no mercado de grandes camadas de consumidores da Ásia. As estatísticas que tentam quantificar esse fenômeno são imprecisas, mas giram em torno de 40 milhões a 50 milhões por ano as pessoas que não consumiam por falta de renda e que estão sendo incorporadas ao mercado. É o que ajuda a explicar a grande demanda, especialmente de proteínas (vegetais e de origem animal).

O Brasil vem sendo beneficiado por esse boom, não só porque está em condições de fornecer soja, milho, café, carnes, açúcar, petróleo, minério de ferro, etc., como, também, porque pode expandir sua própria oferta. Em abril, a agropecuária brasileira exportou em dólares 44,4% a mais do que em abril do ano anterior. A mineração (indústria extrativa), 73,2%. Os dados consolidados do primeiro quadrimestre deste ano apontam, respectivamente, crescimento de 27,2% e 51,3%.

Esse rali é a principal razão pela qual o saldo comercial (exportações menos importações) cresceu 106% nos quatro primeiros meses do ano e está tingindo de azul a conta de transações correntes, normalmente expressa em vermelho. Essa é, também, a principal razão pela qual as cotações do dólar em reais começaram a recuar. E quando as contas externas melhoram, espera-se, também, por maior entrada de capitais para investimento.

E, agora, a questão central. Uma situação de fartura nas contas externas é oportunidade rara que pode pôr em ordem a economia. Seria um pandemônio se, além da deterioração das contas públicas, o País tivesse de lidar com uma corrida ao dólar que ameaçasse o esvaziamento das reservas externas – como aconteceu em crises anteriores e que agora parece hipótese improvável.  

Mas o grande risco é o de que esse bom momento seja visto como senha para o desbunde dos gastos, como aconteceu outras vezes. E que, por incompetência e cigarrice, o Brasil siga sendo o país do futuro, que nunca chega.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA*

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