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A nova corrida espacial

Parece que estamos em pleno terceiro ato, no qual novos personagens entram em cena e parecem dispostos a buscar protagonismo

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2019 | 03h00

A Guerra Fria, como ficou conhecido o período entre 1946 e 1991, no qual Estados Unidos e a extinta União Soviética buscaram estabelecer dominância militar e ideológica ao redor do mundo, acabou ultrapassando os limites do próprio planeta. O ex-primeiro ministro canadense e vencedor do prêmio Nobel da Paz de 1957, Lester Pearson (1897-1972), mencionou a substituição do "equilíbrio do poder" pelo "equilíbrio do terror": um confronto direto entre as duas superpotências resultaria em aniquilação mútua, em uma guerra sem vencedores. Da mesma forma que a criação da Internet teve suas origens em projetos liderados por militares, conforme vimos aqui, o início da exploração espacial também foi motivada pela busca da hegemonia geopolítica global, também refletida em conflitos regionais (como as guerras na Coréia, Afeganistão e Vietnã, a divisão da Alemanha em Ocidental e Oriental e a crise dos mísseis em Cuba). 

As conquistas iniciais além da linha de Kármán foram da União Soviética: o lançamento do primeiro satélite, chamado Sputnik 1, em 1957, seguido pelo primeiro mamífero a orbitar a Terra (a cadela Laika, a bordo do Sputnik 2, também em 1957) e finalmente o primeiro ser humano a ser posto em órbita, feito que imortalizou Yuri Gagarin em abril de 1961. No mês seguinte Alan Shepard tornou-se o primeiro norte-americano lançado ao espaço, e em setembro de 1962 o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, fez seu famoso discurso "We choose to go to the Moon" ("Nós escolhemos ir à Lua") em Houston, no estado do Texas, estabelecendo o final da década de 1960 como prazo limite para este feito. E, de fato, em julho de 1969, Neil Armstrong, comandante da missão Apollo 11 da NASA, foi a primeira pessoa a pisar em um corpo celeste que não a Terra.

A rivalidade e competição deram lugar à colaboração e cooperação cerca de seis anos após a conquista da Lua pelos Estados Unidos: em julho de 1975, os módulos de comando das espaçonaves Apollo (dos EUA) e Soyuz (da União Soviética) atracaram, e três norte-americanos e dois soviéticos trabalharam (e deram entrevistas) juntos por quase dois dias. O aperto de mão entre Tom Stafford e Aleksey Leonov marcou o que muitos acreditam ter sido o final da chamada Corrida Espacial bem como a fundação para o desenvolvimento de programas como a estação espacial Mir (1986-2001) e a própria Estação Espacial Internacional (1998-).

Essa nova "amizade" entre as duas nações parece ter sido motivada por diversos aspectos. Tecnicamente, os EUA eram os detentores da melhor tecnologia para exploração do espaço, enquanto a União Soviética concentrava suas pesquisas na resistência e durabilidade de seres humanos e máquinas durante longos períodos no espaço. Politicamente, a assinatura, em 1972, de um acordo entres as duas superpotências resultante das Discussões sobre Limitações de Armas Estratégicas (Strategic Arms Limitation Talks - SALT) e em 1975, do acordo de Helsinki (envolvendo as duas Alemanhas), contribuíram para redução das tensões globais. Financeiramente, os custos crescentes com pesquisa e desenvolvimento para sustentar os programas espaciais poderiam fazer uso de maior eficiência e cooperação entre os participantes.

O fracasso do regime comunista, simbolizado pela queda do muro de Berlim (1989) e subsequente dissolução da União Soviética (1991), deu origem a novos desafios para ordem econômica e política mundial, inevitavelmente impactando os rumos das colaborações e dos projetos espaciais. O fim do programa do ônibus espacial norte-americano em 2011 (sem um substituto concluído até hoje), a dependência do sistema russo Soyuz (operado pela estatal Roscosmos) para o transporte de passageiros para a Estação Espacial Internacional (ou ISS - International Space Station), a indefinição do papel da própria Rússia no futuro da ISS e a entrada da China no cenário de países com capacidade de colocar pessoas em órbita (começando por Yang Liwei em 2003) desenharam o cenário para o próximo capítulo da aventura humana no espaço.

Se o primeiro ato da Corrida Espacial foi marcado pela competição entre dois governos, e o segundo ato pela colaboração e busca por sinergias, parece que estamos em pleno terceiro ato, no qual novos personagens entram em cena e parecem dispostos a buscar o protagonismo dessa importante oportunidade de negócios. Nossa próxima coluna irá falar das entidades privadas que, graças ao desenvolvimento e barateamento de diversas tecnologias, já são capazes de custear missões antes restritas aos maiores governos do mundo. Até lá.

* Guy Perelmuter é fundador da GRIDS Capital, Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial. Publica neste espaço toda primeira quinta-feira do mês

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