A nova era dos escândalos corporativos nos Estados Unidos

Casos como os do Facebook ou da Boeing apontam o quanto as empresas americanas parecem mais propensas a se envolver em grandes incidentes do que companhias europeias

The Economist

05 de abril de 2019 | 04h00

Duas coisas se destacam nos negócios hoje em dia nos Estados Unidos. Uma é como as empresas americanas são bem-sucedidas: há 57 entre as 100 empresas mais valiosas do mundo. A outra é o odor fétido que paira sobre várias das empresas poderosas.

A Boeing enfrenta reclamações de que vendeu o avião 737 Max com software perigoso. Ela diz que está “tomando medidas para garantir plenamente a segurança do 737 Max”. Acusações criminais foram impetradas contra a Goldman Sachs na Malásia por seu papel na arrecadação de US$ 6,5 bilhões em dívidas para um fundo estatal envolvido em fraudes. A Goldman diz estar cooperando com os investigadores. Um júri na Califórnia acaba de descobrir que a Monsanto não avisou um cliente de que seu herbicida poderia, supostamente, causar câncer. A Bayer, empresa alemã que comprou a Monsanto em junho, diz que vai recorrer do veredicto.

O Wells Fargo, um dos maiores bancos dos EUA, admitiu ter criado 3,5 milhões de contas bancárias não autorizadas. Ele diz estar trabalhando para “reconstituir a confiança de nossos acionistas”. O Facebook está enredado em escândalos; suas práticas de gerenciamento de dados estão sob exame em vários países. A empresa diz que “precisamos ter um papel mais ativo para governos e autoridades regulamentadoras”. Cerca de 146 milhões de clientes da Equifax, empresa de gestão de risco de crédito, tiveram seus dados pessoais roubados em 2017. Ela está sendo processada por negligência, de acordo com seu relatório anual. Um documento recente para seus investidores diz que proteger informações é “nossa maior prioridade”.

Erro

É tentador encarar tais casos como eventos não causados por fatores que variam de má sorte e erro humano a negligência e criminalidade. Isso seria um erro. As empresas americanas parecem mais propensas a escândalos do que seus pares do outro lado do oceano. O valor total de mercado das empresas americanas envolvidas em grandes incidentes que se tornaram públicos desde 2016 é de US$ 1,54 trilhões. Pelo menos 200 milhões de consumidores foram afetados. Os números são de apenas US$ 600 bilhões e menos de 30 milhões de pessoas no caso das empresas europeias.

Os EUA não são novatos na questão de escândalos corporativos. No século XIX, os matadouros vendiam carne podre. Na década de 1960, Detroit fez carros “inseguros em qualquer velocidade”, nas palavras de Ralph Nader, um defensor dos direitos dos consumidores. Na década de 1990, pedidos de indenizações às empresas de cigarros e amianto geraram acordos legais que custaram aos acionistas mais de US$ 150 bilhões. Escândalos contábeis eclodiram na WorldCom, Enron e Tyco no início dos anos 2000 e, em meados da década de 2000, a fraude hipotecária era endêmica.

As crises de hoje são diversas, mas possuem elementos comuns. As empresas tendem a ser estabelecidas, com posições dominantes no mercado. A indignação está incutida nas mídias sociais e no Congresso. E, no entanto, o custo financeiro tem sido limitado. Tome-se uma amostra de dez grandes empresas americanas com ações negociadas em bolsas envolvidas em episódios controversos: o preço médio de suas ações ficou para trás do mercado acionário em 11% desde o evento, após o ajuste dos dividendos. Embora as ações da Boeing tenham perdido 8% desde o acidente na Etiópia, elas estão acima do seu nível em janeiro.

As crises fizeram com que os líderes pedissem demissão em apenas dois dos dez casos: na Wells Fargo e na Equifax. Nos outros, foram feitos alguns ajustes no pagamento da diretoria. A Goldman, por exemplo, diz que os prêmios de participação em ações de alguns ex-executivos poderiam ser recuperados, dependendo da investigação do incidente. No entanto, para as dez empresas, o total de salários de executivos de nível sênior subiu nos quatro últimos anos, para quase US$ 600 milhões, segundo a Bloomberg.

Limites

Uma explicação é que o capitalismo americano não está funcionando de forma adequada. Sempre foi inquieto e dinâmico. As empresas testam os limites do que é possível – e permissível. Mas três forças há muito tempo limitam a conduta corporativa: regulamentação, litígios e concorrência. O rescaldo da crise financeira viu uma tempestade de processos e multas sobre os bancos. Mas desde então cada uma das três forças pode ter se debilitado, aumentando o incentivo para as empresas assumirem riscos.

Tome-se em primeiro lugar a regulamentação. O sistema é uma mistura estranha: há bolsões de atitudes de laissez-faire aqui, moitas de regras e lobbies em todos os lugares. É amplamente propenso à negligência, prisão e incompetência. A Administração Federal da Aviação delegou parte de seu processo de inspeção aos funcionários da Boeing. A Federal Trade Commission tem enfrentado dificuldades para policiar o Facebook.

Em segundo lugar, o litígio pode não ser mais o fator dissuasivo de antes. Casos criminais que levam altos executivos à prisão são tão raros quanto socialistas na Goldman Sachs. Os custos por atos ilícitos admitidos pelas empresas equivalem a cerca de 2% do PIB por ano, mais do que em outros países. No entanto, a vida ficou mais fácil para as empresas. Cláusulas de arbitragem, pelas quais clientes e funcionários perdem o direito de buscar ações coletivas, tornaram-se mais comuns. As empresas são mais propensas a estender os casos por recursos, o que pode levar até uma década.

A restrição final é a concorrência. Isso pode levar empresas a fazerem acordos, mas, no longo prazo, deve agir para disciplinar empresas descuidadas ou de mau comportamento, porque os clientes as evitam. Mas, em toda a economia, as empresas estabelecidas ficaram mais poderosas nos últimos 20 anos, dificultando a mudança por parte dos clientes. Há uma alternativa para a Boeing, a Airbus, mas falta capacidade de reposição. Os usuários acham difícil deixar o Facebook. Pesticidas e herbicidas, verificação de crédito, distribuição e varejo de medicamentos também se tornaram mais concentrados. Talvez a onda de crises leve as empresas a fazer uma autoanálise. Caso contrário, a confiança do público no capitalismo pode sofrer outro golpe. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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